A injustiça burguesa e o tribunal de exceção carioca

Posted on 21/07/2018

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Deu-se neste mês de julho de 2018 a condenação política de 23 jovens que participaram dos intensos protestos que agitaram o Brasil em 2013. Na incrível decisão o verdugo chega a sensibilizar com o ex-governador do Rio de Janeiro, um bandido da pior espécie e réu com uma ficha talvez mais extensa que os maiores criminosos do mundo.  Os 23 foram alvo do carrasco que em decisão inédita emitiu mandado de prisão antes mesmo do acontecimento dos fatos considerados criminais. Tal situação só poderia ser vista nos romances e filmes distópicos como em Minority Report e a idéia de pré-crime.

Toda a fase processual é repleta de farsas, imoralidades e bizarrices, a começar pelo delegado Alessandro Thiers (Este que leva o mesmo sobrenome do patife francês Adolphe Thiers) que, em burlesca entrevista ao jornal O Globo, apresentou como indício de materialidade o livro de “A propriedade é roubo” de Pierre Proudhon, afirmando que o delinquente tinha desprezo às leis e ao Estado Brasileiro. Entre outras “provas” obtidas pela polícia estão garrafas plásticas, tinta guache, pedaços de pau, máscaras de carnaval, vinagre e alguns traques.23-II

Não custa lembrar que Rafael Braga Vieira, um catador, foi condenado a prisão por portar desinfetante. Pode-se notar que o tribunal de exceção carioca não tem apreço nem pela higiene.

O escárnio não termina aqui. A sanha por aprisionamento levou a mesma equipe a procurar por Bakunin, (que para sua sorte já estava morto desde 1876), fato que foi noticiado mundialmente e que certamente deve ter levado quem o leu a irrisão.

Bakunin

Bakunin, filósofo considerado pela polícia brasileira como “foragido” em pleno século 21.

A manifestante Elisa Quadros foi considerada inimiga número um, procurada por todos os cantos, teve seu rosto divulgado em todos jornais sensacionalistas para deleite dos reacionários que, como nos “dois minutos ódio”, praguejavam e amaldiçoavam a perigosíssima criminosa. Na decisão, o juiz utiliza de um linguajar típico do Dr. Lombroso, não poderia nos assustar se mandasse medir os membros ou o crânio da ré. Diz o juiz.: “A ré tem uma personalidade distorcida, voltada ao desrespeito aos Poderes constituídos” e “Outrossim, a ré em comento tem uma conduta social reprovável, pois, apesar de sua condição social, ou seja, apesar de ser uma produtora audiovisual…”.

A decisão moral do senhor Itabaiana está enquadrada como um copia e cola, já que em outras decisões ele utiliza das mesmas palavras.

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Com isso o juiz cria a figura do cidadão de segunda classe brasileiro, aquele que não respeita, que não baixa a cabeça as leis, o “reprovável”, o “feio”, o “untermensch” dos nazistas.

Num período curto de tempo, a câmara legislativa do Rio – num caso raro de extrema eficiência – apresentou sua própria versão das “lois  Scélérates” (Leis Abomináveis). Então foram proibidas as reuniões sem que se tivesse pela cabeça algumas bombas e balas de borracha, as máscaras ou qualquer coisa que cobrisse o rosto e as facas com mais de 10 centímetros de lâmina. A câmara do Rio foi enjaulada, as ruas foram fechadas, pessoas eram paradas e revistadas, um verdadeiro Estado de Sítio.

O Juiz Araponga

Num total desrespeito a profissão de advogado, Itabaiana autorizou escutas telefônicas que tiveram como alvo o defensor dos acusados nesse processo. Não satisfeito usou de seu cargo para ainda ultrajar a OAB e processar o advogado André de Paula.

Ainda no decorrer do processo o juiz manifestou todo o seu autoritarismo expulsando os presentes do tribunal apenas por levantarem o punho em apoio ao réu. Este tipo de conduta no entanto não é novidade para nós, no ano passado as perseguições a FAG (Federação Anarquista Gaucha) tiveram o mesmo modus operandi na chamada Operação Érebo.

Surpreende-nos que, embora conheçam  a mitologia grega e o idioma grego, ainda assim cometam barbaridades como mandar prender filósofos mortos ou comparar o anarquismo ao extremismo dos supremacistas brancos como disse o delegado Paulo Cesar Jardim na matéria espetaculosa em que posa para o programa Fantástico da Rede Globo.

Assim a polícia do pensamento persegue e a justiça burguesa condena. Contudo nada fez com que a luta dos movimentos sociais se extinguisse. O tempo mostrou que tudo o que se dizia nas ruas veio a ser provado, muitas máscaras caíram e ainda cairão.

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Nós da Organização Popular nos solidarizamos com as vítimas do Estado aqui ou em qualquer lugar do mundo, reafirmamos que lutar por direitos não é crime. Repudiamos a abominável perseguição aos manifestantes de ontem e de hoje.

Liberdade para Rafael Braga Vieira, liberdade para os 23!

Organização Popular – Rio de Janeiro 18/07/18

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