Samba de resistência é no Bloco da Ceguinha

Posted on 14/03/2017

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(por: W. B.*)

O Carnaval brasileiro é uma festa de origem popular baseada no calendário católico. Os festejos são feitos justamente nos dias que antecedem a Quaresma (período de quarenta dias em que, segundo o Catolicismo, deve-se ficar voltado para conversão, penitência e oração). Jocosamente, o povo aproveitava o momento que antecedia o período de “abnegação e sacrifício” para festejar e zombar das penitências cotidianas, que – na verdade – se estendem por todo o ano.

No começo, o Carnaval do Brasil se caracterizava pelas festas de rua, das quais qualquer um podia participar. As fantasias dependiam mais da criatividade que do poder aquisitivo do folião. A festa era também um momento de se exercer uma liberdade de expressão que não existia em outras épocas do ano. Através dos blocos de rua, eram feitas críticas sociais bem humoradas, e alguns poderosos figurões da sociedade tinham sua imagem dessacralizada por fantasias que os caricaturavam.

Porém, ao longo do tempo, foram surgindo deturpações. Hoje muitos blocos do Carnaval da Bahia – por exemplo – impedem a participação dos foliões que não tiveram dinheiro para comprar abadás (blusas exclusivas vendidas pelos “donos” do bloco). Já o Carnaval carioca também sofreu um processo de elitização, principalmente nos desfiles de escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Lá, o preço alto dos ingressos impede a participação da maioria das pessoas. A festa é patrocinada por megaempresas que concentram cada vez mais a riqueza nas mãos de poucos. Além disso, o que se vê na tal “passarela do samba”, cada vez se parece menos com samba de verdade. Os enredos e as alegorias nada tem a ver com a vida do povo e os desfiles são quase militarizados, sem espontaneidade, correndo atrás de premiação.

A grande alternativa em termos de verdadeira cultura popular no Carnaval têm sido os blocos de rua. Mas criar ou manter um deles dentro do verdadeiro espírito comunitário é uma tarefa difícil. Há tempos que a Prefeitura do Rio de Janeiro tenta sufocar os chamados blocos “não-autorizados”. Foi o que se viu em 2016, quando a guarda municipal reprimiu violentamente o Tecnobloco e o bloco Boi Tolo (ambos “não-autorizados”). O objetivo é claro: transformar essa festa popular de grande valor cultural numa festividade alienante, baseada nos desfiles da Marquês de Sapucaí, nos bailes de clubes granfinos e em blocos patrocinados por políticos e por empresas campeãs em assédio moral contra seus funcionários (como é o caso da opressiva Ambev, que recebeu isenções milionárias do governo estadual).
Contrapondo-se a isso, existem blocos não domesticados pelos poderes políticos e econômicos. Um bom exemplo é o Bloco da Ceguinha. Este é organizado por trabalhadoras e trabalhadores do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, de maneira totalmente independente de partidos políticos, patrões, pelegos, instituições governamentais etc.
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O bloco mantém sua identidade, avessa aos modismos da Zona Sul e a um “pós-modernismo” classe média. Por isso ele só toca samba, marchinha e frevo: nada de micaretices empleiboizadas. A “Ceguinha” se autofinancia através da venda de camisas, nas quais há uma charge bem crítica na frente e o enredo do ano impresso nas costas. Mas, todas/os sempre podem participar do bloco independente de comprarem ou não a camisa. O evento traz, anualmente, muita diversão e críticas bem humoradas aos poderes legislativo, executivo, judiciário, e à elite em geral. O mote principal é a pergunta: A justiça seria mesmo cega? Ao que parece, a deusa Têmis (símbolo da justiça, retratada tradicionalmente com os olhos vendados) só não vê o que não interessa.
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Para mostrar isso, o Bloco da Ceguinha veio à rua neste 2017, com muita animação e irreverência. Contamos com a presença de gente da tendência político-social Organização Popular, CESTRAJU (Centro de Estudos Socialistas dos Trabalhadores do Judiciário), Movimento Democrático de Luta, Centro Cultural Otávio Brandão, Frente Internacionalista dos Sem-Teto e muitas pessoas da classe trabalhadora do Tribunal de Justiça: serventuárias/os, estagiárias/os e terceirizadas/os.
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A Cooperativa Roça (do Timbau, no Complexo da Maré) também esteve presente disponibilizando sua excelente cerveja artesanal, produzida de maneira autogestionária (sem exploração ou dominação).
Ano que vem tem mais. Lembrem-se: quarta-feira anterior ao Carnaval, no centro do Rio. Fica marcado desde já!
(*W. B. é militante da tendência político-social Organização Popular – OP – e membro do Movimento Democrático de Luta, que congrega pessoas da classe trabalhadora do Tribunal de Justiça estadual)
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