Globo e Cabral: Tudo a Ver

Posted on 19/11/2016

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(por: W. B.*)

“Pra matar índio quem chegou de caravela?
Cabral, Cabral, Cabral!
Pra matar pobre quem chegou lá na favela?
Cabral, Cabral, Cabral!”
(música: Cabrais, banda: El Efecto)

Quinta-feira 17/11/16, o ex-governador do estado do Rio de Janeiro Sérgio Cabral Filho foi preso pela Polícia Federal, no âmbito da chamada Operação Calicute, que investiga desvio de recursos públicos federais em obras realizadas no RJ.

Cabral, nascido em 1963, nunca trabalhou na vida. Esteve metido desde cedo na politicagem partidária como integrante do governo Moreira Franco, deputado estadual, senador e governador por dois mandatos. O primeiro destes foi de 2007 a 2010; o segundo, até 3 de abril de 2014, data em que renunciou em prol de seu vice Luiz Fernando Pezão.
Muito querido pela mídia burguesa, havia sido considerado um dos cem brasileiros mais influentes de 2009, pela Revista Época, publicada pela editora Globo. Criou as Unidades de Polícia Pacificadora, que militarizaram as favelas, ignorando as verdadeiras demandas desses locais: saúde, educação, cultura, saneamento básico etc. As UPPs, no entanto, sempre foram elogiadíssimas pela imprensa capitalista, que nunca deu voz às organizações populares que teciam críticas a essas unidades policiais.
Da mesma forma, as Organizações Globo (assim como a revista Veja e congêneres como a Isto É e outros veículos elitistas) sempre defenderam Sérgio Cabral, blindando-o de qualquer tipo de crítica. A rede de televisão da família Marinho, em especial, desqualificou completamente os protestos contra a Copa da Fifa no Brasil em 2014. Demonizou os manifestantes de 2013 e 2014, que denunciavam as corrupções de Cabral Filho.
Agora o que faz a TV Globo após a prisão de seu protegido? Simplesmente finge não ter correlação nenhuma com ele e suas falcatruas. Busca auferir mais lucros através duma cobertura sensacionalista sobre a captura do ex-governador. Chega e tecer ironias sobre a situação, na maior desfaçatez, como se não fosse essa emissora uma das principais bases de sustentação desse político e outros da mesma laia, como o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes e o atual governador do estado: Luiz Fernando Pezão.
A Globo foi cúmplice de Sérgio Cabral Filho quando este cometeu um crime ainda mais grave do que aqueles pelos quais agora é acusado pela Polícia Federal. Foi no caso da demolição do Hospital Central do IASERJ que ocupava um quarteirão na Praça da Cruz Vermelha, zona central da capital fluminense. O então governador agiu de maneira truculenta contra os que protestavam em favor da permanência do hospital, e a mídia fez uma cobertura tendenciosa contra os manifestantes. Mas o pior foi o que ocorreu na madrugada do dia 15 de julho de 2012. Naquele momento, a mando do governador, a polícia do estado invadiu o hospital e removeu – sem nenhuma autorização médica – os pacientes internados no CTI. Todos os catorze doentes faleceram. Cabral carrega esse crime nas costas, com a conivência da Rede Globo de Televisão, que não deu nenhum destaque à notícia. Para as empresas de comunicação da família Marinho, a vida não tem nenhum valor: os únicos valores que importam são os valores financeiros.
 A Globo já pediu desculpas publicamente pelo apoio que deu ao golpe de Estado de 1964 que originou uma sangrenta ditadura empresarial-militar no Brasil, a qual durou até 1985. Só que a emissora só se retratou quase cinquenta anos depois do editorial pró-golpistas publicado em seu jornal. É valida uma desculpa pedida quase três décadas após o fim daquele regime despótico? Será que a Globo algum dia irá admitir sua cumplicidade criminosa diante dos autoritarismos e explorações do governo Sérgio Cabral Filho?
Vale lembrar: desculpas não trarão de volta nem os mortos da ditadura, nem os mortos do IASERJ. Boicotemos Cabral! Boicotemos a Rede Globo de Televisão!
*W. B. é técnico de atividade judiciária do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, oprimido sobretudo pelos governos estaduais do PMDB (Cabral e Pezão), sem reajuste salarial há mais de dois anos e, até o momento da feitura desse texto (19/11/16), sem receber nenhuma das parcelas do 13º salário do ano corrente. É militante da tendência político-social Organização Popular – OP.
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