Contagem Regressiva: enxergando o que tentam mascarar

Posted on 04/08/2016

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(Por: W. B.*)

29 de julho de 2016: uma noite de sexta-feira diferente para quem ousou escapar da mesmice dos barezinhos careiros do centro da capital fluminense; para quem conseguiu enfrentar o cansaço da saída do trabalho e não zarpar direto pra casa, e também para aquelas pessoas que toparam encarar um tempão nos trasportes públicos vindo de outros bairros até a Cinelândia carioca. Estava marcada para as 19 horas, no Cinema Odeon, a projeção dos quatro episódios do documentário Contagem Regressiva, sendo a primeira exibição pública da obra completa. Foi uma oportunidade ímpar, pois não é toda hora que se tem acesso a uma sessão gratuita dum filme com uma abordagem tão corajosa e original da realidade que nos cerca. O tema é a preparação para os Jogos Olímpicos de 2016 no município do Rio de Janeiro e os aspectos que envolvem esse assunto.

Enquanto a mídia grande só alimenta o oba-oba em torno da Olimpíada, o filme mostra o que tal evento representa de fato para o povo. Ao contrário do que a TV propagandeia em seus programas e intermináveis comerciais, o que se promove nada tem a ver com uma cultura esportiva de paz e integração entre os povos. Desde que a dita “cidade maravilhosa” foi escolhida para sediar o megaevento, recrudesceu-se uma verdadeira operação de guerra aos pobres, favorecendo a especulação imobiliária, empreiteiras, politiqueiros, megaempresários e ricos em geral.

Contagem Regressiva no Odeon externa

Com roteiro e direção de Luís Carlos de Alencar (aliás, um valoroso militante da OP), a obra faz várias revelações impressionantes. Demonstra que mais de 76 mil pessoas foram removidas de favelas e bairros populares sob argumentos diversos como, por exemplo, a construção de estradas e edificações olímpicas de suposto interesse público. Entretanto, na maioria dos casos, nada era construído no local. A prefeitura – em conluio com outras esferas de poder – expulsava os pobres para favorecer empreiteiras, construtoras e especuladores da área de imóveis. Não é por acaso que o jornal inglês The Guardian chegou a escrever que Carlos Carvalho (dono da construtora Carvalho Hosken) é o verdadeiro ganhador do ouro olímpico. Os capitalistas disputam o pódio em suas competições desenfreadas, em que não há espaço para “espírito esportivo”, mas pura e simplesmente para a ganância.

Folhetos Contagem Regressiva e outros

O que se passa no Rio de Janeiro são jogos de poder, jogos financeiros, jogos mortais para as pessoas pobres, sempre exploradas pelo patronato e oprimidas pelos braços armados dos governos. Para que o povo sofra calado sem nenhuma possibilidade de reação, desenvolveu-se uma política de controle urbano, principalmente nas áreas de favela e subúrbios. Assim criam-se espaços militarizados, em que a população pobre fica confinada, sem liberdade sequer para exercer seus gostos, interagir com a vizinhança e se divertir. Mesmo ameaçado por UPPs, operações policiais e invasões militares, o povo mostra sua revolta e sua consciência – e isso é bem visível em Contagem Regressiva, diferente do que ocorre em abordagens da mídia hegemônica, que só apresentam o pobre de maneira estereotipada ou submissa.

Contagem Regressiva cartaz

Enquanto a imprensa capitalista festeja o projeto chamado “porto maravilha”, vê-se que – na verdade – as modificações na zona portuária carioca nada trouxeram de benéfico para os moradores da região. Esta sofreu uma privatização financiada com recursos públicos, passando a ser administrada pelo consórcio das empreiteiras OAS, Odebrecht e Carioca. Muita gente foi expulsa da localidade, que foi transformada apenas em benefício da exploração turística e de interesses de bilionários.

Plateia Contagem Regressiva Odeon

No que tange à mobilidade urbana, a organização da cidade também têm se dado em observância aos interesses dos ricos. O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), por exemplo, foi idealizado apenas para atender turistas que desembarcassem de cruzeiros na zona portuária e quisessem passear pelo Centro da cidade. Trata-se dum transporte que favorece poucos, da mesma forma que a caríssima linha 4 do metrô, voltada para a população de maior poder aquisitivo. Enquanto isso o pobre amarga muitas horas em transportes caros e sempre lotados, situação essa que se agravou com a criação dos BRTs, que forçam as pessoas a pegarem várias conduções e enfrentarem filas quilométricas para chegarem a seus destinos. Não é à toa que o Rio de Janeiro tem sido considerada a pior cidade brasileira para locomoção entre casa e trabalho.

Mc Lasca

A música original “Contagem Regressiva”, feita por Mano Teko e Mc Lasca ironiza com essa situação caótica do transporte no Rio e nasceu da própria observação que esses dois artistas tiveram da realidade que os cerca no cotidiano da cidade. Antes da exibição do documentário no Odeon, os dois foram chamados à frente do público e puderam explicar que a ideia original da música era só falar de transporte, mas outros temas acabaram surgindo em seus versos de maneira natural. Assistindo ao filme, nós vemos bem que Mano Teko e Mc Lasca estão certos em correlacionar transporte com outros temas do cotidiano do povo: tudo faz parte duma mesma rede de opressões e resistências. São casebres demolidos; ocupações urbanas sendo feitas por sem-tetos; gente espremida nos ônibus; manifestações por passe livre; repressão nas favelas; população que desce o morro em protesto. Toda essa luta contínua é árdua, às vezes triste, mas também alegre, pois onde há movimento, aí existe vida, esperança e vigor – elementos presentes nos belos poemas de Elaine Freitas declamados ao longo do filme.

Couro de Rato e Justica Global

Contagem Regressiva, a belíssima realização de Justiça Global e Couro de Rato, é uma obra cinematográfica essencial a quem ousa olhar a realidade fora das lentes burguesas ou estatais, descortinando o mundo por trás dos véus ilusórios de todo dia.

*(W. B. é militante da tendência político-social Organização Popular OP)

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