Um abraço metalingüístico

Posted on 17/07/2016

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(Por Antony Devalle*)

O abraço de 12/06/16 em grande parte do perímetro do Edifício Senado, utilizado pela Petrobras no Centro do Rio (perto da Praça da Cruz Vermelha), foi mais um passo, especialmente importante, na luta contra o aprofundamento aceleradíssimo da privatização do sistema Petrobras. Principalmente, porque representou um salto de qualidade, ainda que por enquanto num instantâneo, como numa fotografia (precisamos transformar em movimento, em filme), na tentativa de (re)construção de uma identidade comum dos trabalhadores petroleiros.

Cartaz ato Senado

Uma identidade coletiva, que seja um fio condutor da pluralidade de identidades existentes na categoria, sobretudo nos trabalhadores de chão de fábrica e chão de escritório. De mãos dadas com a simbologia do abraço, que escolhemos com muito critério, esse fio condutor é como o fio de um lindo colar em que cada pérola é única e o fio em que une todas as pérolas. O universal que une o pluriversal, sem diluir a diversidade. No colar, sobressaem as pérolas, e não o fio. Mas sem o fio, nos bastidores, não existiria o colar. No máximo, um amontoado de pérolas, isoladas umas das outras. Uma identidade que não será uma mera cópia do passado, mas que precisa ser original e, ao mesmo tempo, manter laços com a síntese da identidade histórica da campanha O petróleo é nosso, das décadas de 1940 e 1950, principal responsável pela criação da Petrobrás (na época, com acento – a passagem de Petrobrás pra Petrobras faz parte do longo processo de privatização, agora, numa fase de blietzkrieg).

Abraço2

Essa identidade coletiva é uma peça-chave na luta contra o aprofundamento aceleradíssimo da privatização da Petrobras e da (re)colonização do Brasil. Ela é uma parte muito relevante da dimensão emocional das pessoas. E a dimensão emocional costuma ser bem mais importante do que a também muito importante dimensão racional. É pelo emocional que as pessoas mais se convencem. A publicidade sabe muito bem disso e se utiliza muito bem disso, de modo muitas vezes manipulador, como o clássico comercial da hipnose do “Compre Batom” (https://www.youtube.com/watch?v=sBWu7ibZDVg) expressa bem, no que podemos considerar um dos mais perfeitos exemplos da metalinguagem publicitária. O abraço, formato que escolhemos pra manifestação, também foi metalingüístico na imensa batalha simbólica na qual estamos inseridos.

Abraço3

Essa questão não é menor. Afinal, ao longo de anos (e não apenas nos momentos mais oficialmente identificados como neoliberais ou algo nessa linha, mas também em governos com a política de conciliação de classes), essa identidade em grande medida se perdeu. Hoje, estamos num patamar em que muitos petroleiros são contra essa identidade. Defendem ou pelo menos se vêem com uma identidade tecnocrática, com foco no individualismo, que convive bem com lóbis e redes que agem nas sombras, sem democracia, ainda que muitos não se envolvam com esses lóbis e redes. Isso aconteceu em parte porque também foi muito assim na sociedade em geral, mas também porque houve um esforço deliberado da hierarquia da Petrobras e dos setores (externos à empresa) que controlam essa hierarquia no sentido de fazer uma transição de valores na cultura da empresa e mesmo no sentido de priorizar, na seleção de trabalhadores (por meio dos formatos e da orientação dos concursos) e nos cursos de formação internos, perfis mais voltados pra ideologia tecnocrática e privada, pra mercado-lógica naturalizada. Por outro lado, os que se acham donos dos sindicatos de trabalhadores petroleiros se afastaram muito do cotidiano da maioria dos petroleiros e insistiram numa caricatura de identidade da categoria. Pouco a pouco, se criou um ambiente muito propício pros politiqueiros privatistas, que utilizam o disfarce (falso) da neutralidade da técnica.

Abraço4

A idéia do abraço surgiu no nosso grupo autônomo de trabalhadores petroleiros, o Inimigos do Rei, numa tentativa de atualização e de releitura desse formato de manifestação bastante tradicional na categoria. Já havíamos colocado essa idéia em prática, junto com outros setores da categoria, no abraço em torno do Edifício Lubrax (https://www.facebook.com/inimigosdorei.petroleiros/posts/1789504327939583). Foi construído sobretudo por baixo, pela base. Muitos trabalhadores, tanto os que têm como referência a Comissão de Base do Terminal Aquaviário da Baía de Guanabara (TABG) quanto os que se reúnem na entrada do Lubrax a cada 15 dias, aproximadamente, assim como vários outros, próximo de alguns de nós e de pessoas de quem somos próximas, entre outros, foram divulgando a idéia e o ato em si, quando a data ficou definida. Muita gente se sentiu parte da construção desse abraço e (também) por isso abraçou a idéia. Muita gente enxergou que era um esforço de “gente como a gente”. Pessoas que não estão acostumadas a participar de atos chamados pelas diretorias sindicais participaram do abraço e parte dessas pessoas ajudou a construí-lo. Grande parte dessas pessoas ficou, de mãos dadas, na parte que estava de perto da saída da garagem do Edifício Senado na Avenida Henrique Valadares até praticamente a esquina da Rua dos Inválidos com a Rua do Senado, sendo mais de metade dos presentes. Essa metade foi basicamente a partir do trabalho por baixo, pela base. Nessa metade havia vários petroleiros que não se identificam com o que o sindicato parece ou mesmo que muitas vezes são até avessos, em maior ou menor grau, ao que aparece em geral como sendo o sindicato. Pessoas que, em sua maioria, não estariam ali se não fôssemos nós e outros que agiram construindo pela base, envolvendo as pessoas, no máximo possível, também nessa construção. Parte dessas pessoas estava ali apesar dos que se comportam como donos dos sindicatos. Algumas inclusive comentaram comigo que só iam ficar porque a causa é maior e porque haviam combinado comigo. Tanto algumas pessoas da categoria como algumas de fora da categoria, que vieram apoiar, entendendo que essa luta é do conjunto do povo trabalhador brasileiro.

Cartaz Senado

A outra quase metade dos participantes era basicamente de pessoas da CUT, do PT e pessoas que os que se acham donos do sindicato contratam pra participar de algumas atividades.

O contraste era bastante nítido.

Agora, precisamos atuar pra que a força simbólica e material mostrada e criada no abraço em torno do Edifício Senado não esvaia. É uma tarefa de cada uma e de cada um de nós.

Edifício Senado

* Antony Devalle é militante da tendência político-social Organização Popular (OP) e do grupo de base petroleiro Inimigos do Rei.

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