V de Vingança: filme para debater

Posted on 19/06/2016

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(por: W. B.*)

Na tarde do sábado 27/09/14, no Centro Cultural Otávio Brandão, no bairro carioca Maria da Graça, foi exibido V de Vingança, seguido de uma instigante roda de bate-papo. Tive a grata atribuição de animar o evento a partir da exposição de algumas impressões pessoais tanto acerca do filme quanto da história em quadrinhos que lhe deu origem.

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A iniciativa dos coordenadores do CCOB foi realmente bastante louvável. Muitas pessoas têm acesso a filmes em suas casas através de TVs por assinatura e sítios eletrônicos, mas para ampliarmos nossas percepções sobre obras cinematográficas é essencial debater. E debate não é o que as pessoas fazem às pressas através de redes sociais, respondendo superficial e grosseiramente às postagens uns dos outros, mal lendo o que foi teclado pelo “interlocutor” (muitas vezes um perfil falso).

Cine-debate é os indivíduos se encontrarem num mesmo local físico, assistirem juntos ao filme e, depois, trocarem suas impressões, exercitando a sociabilidade e enriquecendo entendimentos a partir das diferentes apreciações acerca do que foi visto na tela.

Assistir a V de Vingança sozinho, sem conversar com ninguém a respeito, pode privar a pessoa de vários questionamentos que poderiam ser suscitados. É verdade que o filme é uma diversão cinematográfica hollywoodiana, um entretenimeno, tudo bem, mas ele não é só isso. Além de se entreter, a pessoa pode alcançar bem mais com o filme, e conversar sobre ele nos ajuda a curtir outros aspectos da obra, aproveitando melhor o grande cinema que é V de Vingança.

O longa-metragem é uma produção inglesa, norte-americana e alemã de 2005, que relata a luta contra um governo fascista na Inglaterra, num futuro próximo. Baseou-se num romance gráfico (história em quadrinhos) com roteiro de Alan Moore e desenhos de David Lloyd lançado em 1988. Moore reprovou a realização do filme antes mesmo do início das filmagens, pois já tinha se frustrado diante das adaptações cinematográficas de outros trabalhos seus como: Do Inferno, Constantine e Liga Extraordinária. Já o desenhista David Lloyd teve uma postura diferente e chegou a colaborar com a produção. Afirmou, no entanto, que o filme seria necessariamente diverso da HQ que lhe deu origem. A linguagem cinematográfica tem códigos próprios que impõem modificações quando da adaptação de uma obra literária ou quadrinhística.

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O fime foi roterizado pelos irmãos Wachowski, que escreveram e dirigiram a trilogia Matrix, e dirigido por James McTeigue (que trabalhou com eles como assistente de produção na trilogia). Pode-se dizer que McTeigue – estreando como direror com V de Vingança – começou com o pé direito. É fato que a obra acabou trazendo alguns cacoetes à Matrix totalmente desnecessários, como a câmera lenta durante as cenas de luta, algumas mais extensas do que deveriam. Porém isso foi compensado pelos pontos altos do filme, extremamente inteligente e cheio de referências interessantes.

O personagem principal atende apenas pelo codinome V e planeja explodir o prédio do Parlamento no dia 5 de novembro. A data se refere à história de Guy Fawkes, soldado inglês católico que, num ato contra o governo protestante da época, planejava destruir o prédio do Parlamento britânico. Acabou preso justamente em 05/11/1605, vindo a ser enforcado. Tornou-se tradição, na Inglaterra, destruirem-se bonecos de Guy Fawkes no dia 5 de novembro, à semelhança do que ocorre no Brasil com a malhação de Judas no Sábado de Aleluia.

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(Retrato de Guy Fawkes)

A ousadia do filme já começa aí, pondo como ícone positivo um personagem histórico tido como traidor por grande parte da própria população inglesa. Mas as ousadias não param nisso. Apesar de usar máscara e codinome, V não se parece com os conhecidos heróis dos quadrinhos, bons moços, defensores da propriedade. V expropria bens dos ditadores, toma uma emissora de TV para fazer um pronunciamento contra o governo, explode prédios públicos…

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Suas motivações não são apenas políticas: ele também quer se vingar. Não por acaso ele é fã do livro “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas, e do filme homônimo, do qual sabe as falas de cor. “O Conde de Monte Cristo” é a história da vingança do personagem Edmond Dantès, um homem bom a quem roubam o amor e a liberdade, e com quem V sente forte identificação.

V não é um salvador do povo, uma espécie de messias, mas um incitador. O fato de ele inicialmente ser motivado por ressentimentos pessoais ressalta seu caráter humano, assim como certas atitudes que toma, bem questiónáveis em termos éticos. Das motivações individuais, passa-se para objetivos sociais, aos quais a adesão do povo se torna necessária. No campo simbólico, nota-se que no filme todos os oprimidos são um pouco V. Evey (órfã que se une a ele na luta) tem a letra “vingadora” no nome, assim como a personagem lésbica Valerie. Gordon Deitrich – apresentador de TV obrigado a esconder a própria homosexualidade – diz, brincando, ser o mascarado perseguido pelo governo.

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Na história em quadrinhos V defende a anarquia, falando explicitamente contra os líderes e a favor da auto-organização do povo. Essas referências diretas desaparecem na adaptação cinematográfica. No entanto quem conhece a anarquista russa Emma Goldman (1869-1940), pode reconhecer uma frase sua na voz de V durante o filme: “Se não posso dançar, não é minha revolução”.

O filme é mesmo uma revolução no cinema, apesar de realizado sem grandes transgressões à estética usual dos filmes de ação norte-americanos. V de Vingança adentrou as salas de exibição como quem não quer nada, parecendo só mais um entretenimento cinematográfico típico da cultura de massa. Mas quem assiste a ele com atenção nota que sua carga ideologica é uma verdadeira bomba – no melhor dos sentidos.

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*W. B. é militante da tendência político-social Organização Popular – OP

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