Por uma Greve Geral construída Pela Base

Posted on 04/03/2016

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(por: OP* e GAMA**)

No opúsculo O que é Greve Geral? (1895), Fernand Pelloutier tenta explicar a estratégia da greve geral que, na época, aparece como alternativa às greves parciais. Fruto em alguma medida de debates anteriores promovidos dentro dos congressos da Internacional (1864-1876), a reflexão tenta explicar simultaneamente os limites das greves parciais, bem como as suas consequências para a luta de classes, a médio e longo prazo. Assim, escrito sob forma de diálogo entre operários:

– 1° operário – Condenas, então, as greves?

– 2° operário – As greves parciais, sim; ao menos aquela que não têm uma importância suficiente para interessar jornais e deputados socialistas a apoiá-las. Por sinal, aqui entre nós, sabeis que todas as greves, todas, são funestas. Aquelas que fracassam… inútil dizer por que: a primeira é que, salvo o caso muito raro em que a necessidade de entregar encomendas urgentes obriga o patrão a ceder imediatamente, o aumento de salário obtido nunca cobrirá os sacrifícios feitos por ela. (…) A segunda razão é que, mesmo após uma greve feliz, os operários ficam tão desgostosos do magro resultado obtido que, durante muito tempo, não se deve mais contar com eles para apoiar o movimento revolucionário. Belo resultado!

Pelloutier foi uma das figuras seminais do sindicalismo revolucionário e ferrenho opositor da interferência direta dos partidos políticos nos sindicatos. Além de entusiasta das Bolsas de Trabalho e iniciativas educacionais no campo operário, em várias oportunidades, polemizou com os socialistas do campo ideológico de Guesde e Lafargue sobre a insuficiência das greves parciais. Ele acreditava na necessidade da constituição do “partido operário”, uma forma de se referir ao conjunto da classe operária, com programa próprio elaborado a partir das necessidades dos trabalhadores e aplicado no ritmo estabelecido pelos congressos e plenárias. Em conformidade com tal premissa, no Congresso da Federação dos Sindicatos (1892), em Marselha, em companhia da Aristide Briand, fez aprovar o seguinte texto:

Entre os meios legais inconscientemente postos à disposição dos trabalhadores, existe um que hábil e politicamente interpretado, deve assegurar a transformação econômica, fazendo triunfar as legitimas aspirações do proletariado.

Esse meio é a suspensão universal e simultânea da força produtora em todos os setores, ou seja, a greve universal que, mesmo limitada a um período restrito, conduzirá infalivelmente o partido operário para o triunfo das reivindicações formuladas no seu programa.

Em Nantes, em setembro de 1894, a tese da greve geral é aprovada pela maioria expressiva dos delegados. Os socialistas gesdistas abandonam o salão do congresso depois da votação. Consumava-se assim a separação entre duas estratégias: a da tática eleitoral/greves parciais e a da tática da ação direta/greves gerais.

Pode-se afirmar que, entre 1892 e 1900, variados fatores contribuem para que a tese da greve geral se sobreponha à prática de greves parciais. Os resultados das greves isoladas e meramente corporativas parecem ter auxiliado muito para a efetivação dessa tendência geral. É possível ainda inferir-se dessa dinâmica social que, na prática, dava-se o estabelecimento de uma cultura política sindical claramente hostil à mediação dos problemas da classe trabalhadora por elementos estranhos a ela própria.

O Congresso Corporativo de Toulouse (1897) iria ainda mais longe ao aprovar o seguinte texto:

No que respeita às greves parciais, a vossa Comissão declara, com estatísticas na mão, que em geral são prejudiciais aos interesses e, consequentemente, seria agradável ver desaparecer a frequência com que as greves aparecem, embora não duvidemos que há muitos casos de greve inevitável.

O Congresso de Paris (1900) diz algo semelhante:

Não julgamos dever encorajar as greves parciais que consideramos como nefastas, mesmo quando se obtêm resultados apreciáveis, porque elas nunca compensam os sacrifícios feitos e em seguida os resultados que podem oferecer são impotentes para modificar a questão social.

A greve geral, vista como “ginástica revolucionária” pelos sindicalistas da ação direta, pressupunha então um acordo entre as profissões, dentro dos ramos industriais, e a pactuação de um projeto para o partido operário. Uma linha de conduta estratégica, contra as iniciativas fragmentárias e fragmentadas, que não levasse à exaustão da própria ferramenta da greve.

Os sindicalistas revolucionários entendiam ainda, dentro da lógica da “tática eleitoral/greves parciais”, praticada pelos socialistas guesdistas, que as greves parciais obedeciam aos calendários eleitorais e, consequentemente, levavam o movimento sindical a ser parte do próprio sistema que pretendia demolir. Ou seja, subordinado ao institucional do Estado, era cada vez menos ele próprio e mais o que se esperava de um movimento dentro da ordem. E ainda, movido por uma lógica perversa, era cada vez menos classista, para se afirmar e definir politicamente.

Outro aspecto importante da greve geral é que, em percebendo as múltiplas funções das diversas categorias em um capitalismo avançado, a complexidade da relação destas com os patrões e o Estado e, em última análise, a assimetria do poder de pressão dentro das próprias categorias, em função dos diferentes papéis que estas desempenham nas malhas econômica e social, era fundamental o pacto sindical. Era fundamental a unidade, ainda que sem a unicidade sindical; era fundamental a construção de um projeto de “partido operário” sem o qual as diferentes categorias em greves parciais terminassem mergulhadas no mais profundo desânimo.

Assim, o que imaginavam os sindicalistas revolucionários é que, se não há projeto revolucionário animando as iniciativas sindicais, estas levariam invariavelmente a práticas oportunistas, eleitorais, e incapazes de resolver os fundamentais problemas da classe. Ao sabor das “oportunidades”, os trabalhadores perderiam, de fato, a oportunidade de mudar as coisas na sua forma e conteúdo.

Vale dizer ainda, e tal não se coloca em lugar subalterno na nossa análise, que, para a estratégia da greve geral, contava muito a capilarização do sindicato na sua base, ou antes, contava sobremaneira a perspectiva segundo a qual a separação entre base e direção sindical era mesmo absurda. Unidos pela mesma condição, premidos pelas mesmas necessidades e movidos pelo mesmo propósito, era possível pensar um projeto radical, uma dimensão para muito além da retórica de assembleia e dos planos artificialmente urdidos pelas seitas partidárias.

Ainda nessa perspectiva, a experiência sindicalista revolucionária nos parece muito mais realista e factível que as vitórias mitigadas das greves parciais, para não lembrar das muitas derrotas fragorosas; que os projetos de lei, em cujo conteúdo encontramos muito mais os limites da nossa luta que a sua continuidade; e que as permanentes acusações de que as nossas derrotas históricas se devem aos reformistas, por um lado, e/ou aos radicais irresponsáveis, por outro.

Achamos que, para fazer avançar a classe, é preciso, antes, não transformar as desculpas em “barricada segura” para assentar as próprias inseguranças. E menos ainda, assediar o conjunto da classe com prognósticos aterradores sobre um hipotético “futuro próximo”, tentando inclusive arrastar pelo medo e ameaças, mais ou menos veladas, para aquilo que a ausência do trabalho de base não possibilitou pelo caminho da indignação. E talvez mais que tudo, não desrespeitar a base falando em seu nome, mas, muito diversamente, falando com ela.

Defendemos, ainda, que alguns dos problemas apontados acima afetam hoje os nossos sindicatos. Problemas estes que se revelam sob a forma de lideranças semicarismáticas, correntes partidárias, grupúsculos conspiratórios e individualidades histriônicas. E que se traduzem em greves parciais, longas e fracas, quando deveríamos ter greves gerais, curtas e fortes. Um receituário que vem se repetindo ao longo dos anos e que, de tão infértil, já devasta com a sua aridez até as energias mais vibrantes do nosso movimento. E, por fim, reforça a lógica que reproduz a estagnação e a imobilidade, na qual a maioria da categoria não se enxerga em outro papel que não o de observador passivo.

*OP, tendência político-social Organização Popular.

**GAMA, Grupo de Afinidades e Movimentação Anarquista.

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