Petrobras: a Situação sem Graça

Posted on 05/02/2015

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(por: Antony Devalle, do Grupo de Base Inimigos do Rei‎)

A saída da Graça Foster da presidência da Petrobras é muito importante, mas o cenário é complexo e preocupante e, ao mesmo tempo, apresenta, apesar de todos os muitos pesares, uma possibilidade maior de esperança (se houver uma luta muito maior por parte dos trabalhadores e do conjunto do povo trabalhador). O que tenho lido e a lógica de atuação do governo indicam, infelizmente, que a próxima pessoa na presidência da maior e mais estratégica empresa do nosso país vai ser indicada ainda mais diretamente pelo chamado mercado (leia-se: por grandes agentes capitalistas privados e privatizantes).

Graça Foster

Os nomes especulados até agora são pesos-pesados dessa linha, como Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central e muito ligados a grandes banqueiros transnacionais, Alexandre Tombini, atual presidente do Banco Central, Roger Agnelli, ex-presidente da Vale privatizada (antes era Companhia Vale do Rio Doce), Antonio Maciel Neto, presidente do Grupo Caoa e ex-funcionário da Petrobras, Nildemar Secches, ex-presidente da Perdigão e ex-presidente do Conselho de Administração da BRF, Luciano Coutinho, presidente do BNDES, e Rodolfo Landim, que presidiu a Petrobras Distribuidora (BR) e saiu de lá pra ser um alto executivo da OGX, do Eike Batista, que está em recuperação judicial, contrariando o discurso que colocava seu dono majoritário e garoto-propaganda do capitalismo privado como solução pro Brasil.

Nessa linha, a Petrobras está sendo ainda mais privatizada do que já vem sendo há muitos anos, inclusive pelo PT (e, nesse caso, por vários fatores, de modo mais disfarçado ou, pelo menos, menos percebido por uma parcela relativamente grande do povo trabalhador). O mercado está tomando conta ainda mais diretamente da empresa, sobretudo da sua lógica de funcionamento. O caminho pruma privatização mais direta, no estilo de bater o martelo num leilão, como foi com a Vale do Rio Doce, não está descartado. Considero, no entanto, que os setores mais inteligentes dos privatistas escolhem manter algum nível de participação do Estado (em grande medida, dominado por eles) na empresa, mas aprofundando cada vez mais a privatização da sua composição acionária, do seu patrimônio, de modo mais amplo, e da sua lógica de funcionamento, com o objetivo de facilitar a socialização dos prejuízos e a privatização dos lucros, além de ajudar na ilusão de muitos trabalhadores, inclusive petroleiros, pois muitos ainda acham que privatização é só no modelo feito com a Vale do Rio Doce.

Nesta sexta, dia 6 de fevereiro, a nova diretoria da Petrobras vai ser escolhida pelo Conselho de Administração. A escolha vai continuar sendo por meio de indicação. Muitos talvez achem que vai ser indicação dos partidos políticos “profissionais” ou do governo e realmente, em parte, vai ser isso. Mas esses, apesar de grandes comissões, são, em grande medida, prepostos dos grandes capitalistas do mundo. Ou seja, quem vai realmente indicar, no atual cenário, a nova diretoria da Petrobras vai ser o mercado. E vai fazer isso com um discurso tecnocrático, com a intenção de encobrir que, no fundo, as indicações são políticas, no sentido de uma escolha de rumos.

Essa linha já foi seguida na criação da diretoria de Governança, Risco e Conformidade. A pessoa que ocupou o cargo de diretor dessa área, João Elek Júnior, foi escolhido pela hierarquia com critérios de não ser um trabalhador da Petrobras e de ser um técnico de mercado. Utilizando esses critérios, vinculados aos mitos da imparcialidade e da neutralidade da técnica, que são entrelaçados.

Essa forma de escolha é trocar seis por meia dúzia, sendo que a meia dúzia pode ser ainda pior do que o seis. A Graça Foster é a Margareth Thatcher da Petrobra$. Quando foi empossada como presidente da empresa, o tal do mercado ficou contente. Estendeu pra ela seu tapete dourado. Foi, em grande medida, uma escolha do mercado. Conjunturalmente, ela não serve mais, pro mercado, pra ocupar essa posição. Mas não porque ela tenha atuado de forma contrária ao que o tal do mercado queria. Não, pelo contrário. Ela fez o que o mercado queria. Só que a conjuntura do xadrez político não é favorável à imagem dela. Ela é o seis. Quem vai ser a meia dúzia? O Ronald Reagan da Petrobra$? O Roberto Campos da Petróleo Brazileiro S.A.? Um Pinochet, com seus Chicago Boys, da Petróleo Estrangeiro S.A.?

O nosso grupo defende que parte da saída é a democratização da Petrobrás. Como proposta inicial, aberta a debate, nos inspiramos em instituições como universidades públicas. Todos os cargos da hierarquia sendo preenchidos por meio de eleição direta entre os trabalhadores, exceto a presidência, que seria por meio de uma eleição que geraria uma lista tríplice, remetida ao Ministério de Minas e Energia pra escolher um dos três nomes. As grandes decisões de cada instância seriam tomadas em assembléias. O abismo entre a menor e a maior remuneração na empresa teria que dimunuir muito. E o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) teria que ser subsituído por um Conselho Popular de Política Energética (CPPE). Continuamos convidando todos os trabalhadores petroleiros e o conjunto do povo trabalhador pra debatermos essa proposta, até pra melhorá-la, e pra lutarmos pela democratização da Petrobrás, rumo à sua autogestão social.

 

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