Hoje Barca Rio-Niterói fica à deriva, mas esse mau serviço não é novidade

Posted on 29/12/2014

0



(por: W.B.*)

Mais uma vez passei por momentos de tensão ao atravessar de barca do Rio de Janeiro para Niterói, na manhã desta segunda-feira 29/12/14. Resolvi escrever este texto na tentativa de criar algo crítico e útil a partir da minha insatisfação.

Uma batalha antiga

O fato é que não é de hoje a insatisfação dos passageiros com o transporte aquaviário fluminense. Dados históricos demonstram que, já em dezembro de 1925, começaram a ocorrer ondas de rebeliões populares fomentadas pelos maus serviços prestados pela administradora da travessia marítima da Baía de Guanabara. Naquela época mesmo, indignada com o aumento das tarifas das barcas que realizavam o trajeto Rio-Niterói, a população iniciou uma série de depredações às estações “Niterói” e “Gragoatá”. Em 1928, devido ao mau funcionamento e atraso de várias embarcações, ocorreu outro episódio de sublevação popular, e várias barcas da estação Cantareira foram depredadas.

Em 1945 o Governo Federal concedeu, à Frota Carioca S/A, o controle acionário da Companhia de navegação Cantareira. Em 1953 foi criada a Frota Barreto S.A., que passou a controlar as ações da Frota Carioca S/A e da Cia. Cantareira.

Como consequência das filas de passageiros cada vez maiores, atrasos constantes dos horários das barcas e insatisfação por parte dos funcionários, aconteceu o importante evento histórico que ficaria conhecido como Revolta das Barcas (1959). No dia 18 de fevereiro daquele ano, o Grupo Carreteiro (dono da Companhia de navegação Frota Barreto) ameaçou paralisar as barcas caso não fosse permitido o aumento da tarifa ou um maior subsídio do governo. Em seis de março do mesmo ano, o grupo retirou deliberadamente algumas barcas de circulação, com o objetivo de pressionar o governo.

O que se viu na época foi o empresariado dos transportes tentando agigantar ainda mais seus lucros na exploração deste importante serviço público, em detrimento do cotidiano do povo. Este, porém, não assistiu calado à tibieza (ou conivência) governamental, nem às chantagens empresariais: cinco sindicatos de trabalhadores do transporte aquaviário ameaçaram logo entrar em greve (marinheiros, foguistas, mestres arrais, motoristas e eletricistas) contra o explorador grupo Carreteiro – tal empresa deixou de pagar os salários de março alegando falta de verba.

Em 22 de maio de 1959, o tráfego na baía foi paralisado devido à greve dos marítimos, uma vez que o Grupo Carreteiro se recusou a pagar o aumento salarial que a pressão dos trabalhadores obrigara o governo a decretar.

Com a greve, as estações das barcas amanheceram ocupadas por policiais e fuzileiros navais. Toda essa proteção, no entanto, foi insuficiente, pois a população – mais de três mil pessoas – transpôs o cordão de isolamento das forças de repressão e adentrou na marra a estação das barcas de Niterói, ateando fogo, apedrejando e destruindo toda a sua estrutura, além das luxuosas casa e fazenda da família Carreteiro, construídas às custas da exploração ao povo.

Passagens com tarifas um pouco mais aceitáveis e embarcações menos precárias só se fizeram presentes à medida que o povo manifestou e pressionou o governo e o empresariado, mantendo acesa a memória da Revolta das Barcas. 2013 foi um ano emblemático em relação a isso, quando o povo derrubou – pelas ações de rua – o aumento das tarifas dos transportes pelo país inteiro.

Depois de toda uma intensa campanha midiática contra as manifestações que se espalharam no país a partir de junho-julho de 2013, parece que os empresários dos transportes voltaram a se encher de confiança e não se cansam de cometer abusos contra os passageiros.

Esses abusos incluem altos preços de tarifa, poucos veículos, superlotação, enfim, muita, mas muita, precariedade.

Foi essa precariedade que tive que enfrentar hoje – mais uma vez – ao tomar uma barca rumo à cidade de Niterói.

 

Transporte nosso de cada dia

 29/12/14 entrei na Barca Ingá II saindo da Estação Praça XV, na capital fluminense, rumo ao município de Niterói às 7h10min da manhã. A barca estava com poucos passageiros e havia até assentos vagos, o que, aliás, é raríssimo. Porém a satisfação de não estar numa embarcação lotada, logo deu lugar à apreensão quando soou um alarme. Notando um estranho movimento entre a tripulação, perguntei, a um funcionário da barca, se havia algum problema e que som era aquele. Ele me respondeu que não havia problema nenhum e tratava-se apenas de um teste do “alarme do banheiro”. O estranho foi que, logo depois disso, o motor da embarcação parou. Os passageiros então indagaram porque da diminuição da velocidade. Um marinheiro respondeu que era apenas para esperar a passagem duma embarcação com preferência, que estaria cruzando o caminho da barca. Não vislumbrei nenhum outro barco. Desconfiei logo que as duas informações dadas pela empresa fossem mentirosas.

A barca permaneceu bastante tempo à deriva e ninguém era esclarecido sobre o que acontecia. Algumas pessoas entraram em pânico, choraram… A verdade só veio à tona depois, quando uma voz nos auto-falantes admitiu que um problema técnico paralisara o motor.

Tentei me queixar ligando para o telefone da Agetransp que, por determinação legal, tem de ficar exposto no interior dos veículos. Mais uma vez ficou nítida para mim a hipocrisia governamental, pois, por mais que eu insistisse, ninguém atendia à minha ligação para a tal agência “reguladora”.

Um funcionário da barca pediu que puséssemos os coletes salva-vidas e informou que passaríamos para outra embarcação que se aproximaria da nossa. As pessoas vestiram os coletes meio sem jeito, pois não havia muitas instruções a respeito do uso. Passamos para a barca Neves V.

20141229_074454

Só a revolta conseguia ser maior que o desconforto, medo e insatisfação pelo atraso.

Os privilégios continuam, mas a luta, também

A travessia Rio-Niterói se dá de maneira desconfortável, sem ar-condicionado (mesmo no extremo calor que faz durante o verão carioca), com atrasos e superlotação frequente. Os donos da CCR (concessionária que monopoliza as barcas e a ponte Rio-Niterói) ainda têm a cara de pau de cobrar R$4,80 por pessoa que atravessa, valor absurdo sobretudo se considerarmos o fato de cada embarcação levar mais ou menos dois mil passageiros em média.

20141229_074533

Quem adquiriu o chamado Bilhete Único paga “apenas” R$3,10. Mas o governo do estado do Rio de Janeiro cobre integralmente a diferença, para que a CCR, “coitadinha”, não deixe de receber nem um centavo de seus sagrados R$4,80. Isso foi fruto dum conluio que o governo estadual fez com a empresa, para minimizar os protestos contra o último aumento de tarifa, sem diminuir um tostão do lucro da concessionária.

20141229_080130

O conluio com as concessionárias de transporte também inclui o judiciário fluminense. Vale recordar que, em 2012, o juiz Mauro Nicolau Júnior, da 48ª Vara Cível emitiu decisão favorável à Barcas S.A. (que detinha a concessão na época) cerceando o direito de manifestação contrária ao aumento de tarifa. O mais chocante foi, em abril de 2013, a decisão da juíza Simone Gastesi Chevrand, da 25ª Vara Cível, acerca da ação proposta pela CCR Barcas (que passara a administrar o transporte público pelas águas da Baía de Guanabara). A magistrada deferiu liminar para impedir a manifestação de Rafael Rocha Barros Costa (então estudante de 18 anos) em ato público contra a concessionária agendado para 2 de abril de 2013. Caso descumprisse a determinação judicial, Rafael teria que desembolsar “módicos” R$5 milhões de multa.

20141229_080122

Já que tratamos de multas, é bom lembrar que, mais ou menos por aquela mesma época, a insatisfação popular levou a Agetrans (agência responsável por controlar os transportes públicos estaduais) a impor multas aos consórcios que administravam os serviços das barcas. Só que se descobriu, mais tarde, que essas penalidades não eram cobradas sob a justificativa de que seus valores seriam revertidos para uma pretensa “melhoria no sistema”…

É nítido: não são as agências reguladoras, nem o judiciário ou os políticos que vão mudar essa caótica situação do transporte aquaviário fluminense. Só mesmo o povo, com autonomia, apoio mútuo e ação direta, pode obter conquistas. Não é fácil, mas é o único caminho possível.

*W.B é militante da Organização Popular (OP)

Anúncios