Do Seminário da Organização Popular

Posted on 18/08/2014

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O texto abaixo foi produzido pela tendência político-social Organização Popular (OP) a partir  de reflexões suscitadas por seu seminário realizado no domingo 6 de outubro de 2013 na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Os escritos que compõem o presente documento foram produzidos ainda no ano de 2013, no seu final. Só agora ele está sendo publicado por conta das muitas contribuições felizmente surgidas nos debates de cada uma das frentes da organização.

SEMINÁRIO DA ORGANIZAÇÃO POPULAR (OP)

Frente Comunitária

O trabalho comunitário

1) Introdução
O que é comunidade? O que significa “viver em comunidade” sob o Capitalismo? Há muitos exemplos da vida em comunidade ao longo da história. Os cristãos originais, por exemplo, viviam em comunidade e dividiam tudo o que produziam e pescavam. Diversas tribos e povos originários e indígenas, antes da chegada dos portugueses e espanhóis na América, também viviam comunitariamente, dividindo inclusive a decisão política, que era tomada por todos. Apesar das várias tentativas de oprimir e acabar com o espírito de comunidade, os oprimidos jamais se calaram. A escravidão acabou com a vida comunitária dos negros trazidos de maneira forçada para trabalhar nas lavouras de café pelos portugueses. Ainda assim eles se organizaram e resistiram, criaram quilombos onde negros, índios, brancos e quaisquer oprimidos viviam em comunhão. Isso não quer dizer que tudo era perfeito nesses exemplos, mas que a decisão sobre os assuntos do cotidiano eram tomadas de maneira direta pela própria comunidade.
O Capitalismo, em seu desenvolvimento histórico, vem destruindo a vida em comunidade, e uma das primeiras ações de seu projeto de dominação foi transformar toda terra em mercadoria. Expulsando milhares de camponeses das suas posses, o Capitalismo acabou com a vida em comunidade e exportou esse modelo para todas as partes do mundo. Não existe Capitalismo sem que terra e moradia se tornem mercadorias, e não existe vida plena em comunidade sem o controle das terras pelo povo.
Vemos que o Capitalismo, em sua dinâmica econômica, destrói o que vincula os trabalhadores ao seu local de moradia e trabalho. Aquele que mora e vive da terra começa a ser obrigado a produzir para o mercado e menos para seu consumo e da comunidade. Temos aí uma dinâmica que podemos chamar de “estrutural” do sistema capitalista que cria seus efeitos sobre nós, trabalhadores e trabalhadoras. Mesmo assim, diferentes formas de resistência popular vão surgindo em distintos contextos histórico-sociais para enfrentar essa situação.
Defendemos assim uma ideia de comunidade como sinônimo de luta e espaço onde as pessoas estabelecem vínculos e relações coletivas do tipo econômicas, culturais, políticas e outras. O espaço comunitário é algo que almejamos e onde se comunga o espírito de apoio mútuo, fraternidade e da solidariedade, e as pessoas encontram na unificação de esforços o meio para se enfrentar os problemas e os inimigos. Espaços de poder popular onde os que vivem ali têm autonomia política para discutir e decidir coletivamente sobre suas vidas e os rumos que a comunidade deve tomar.
Fazemos referência assim às comunidades de pescadores e ribeirinhas, às comunidades quilombolas, comunidades camponesas e indígenas, como também as ocupações urbanas. E as favelas e periferias, em suas lutas e resistências diárias, acreditamos encarnar esta ideia de comunidade. Sabemos que há também o esvaziamento do sentido político e de luta da favela, pela burguesia e mídia, denominando-a “comunidade”, também como uma forma de eufemismo da precariedade e omissão do poder público com o povo que vive ali. A favela e os favelados existem como sujeitos e tem suas demandas, não se pode querer minimizar a realidade nesses locais com obras de enfeite e controle miltar-policial.

2) Uma história mais recente… Nos bairros, nas periferias e nas favelas a resistência não acabou!
O Brasil, especificamente o Rio de Janeiro, foi palco da introdução brutal do sistema capitalista. O desenvolvimento das fábricas em território nacional acompanhou a vinda de mão de obra imigrante, a transformação da mão de obra escrava em assalariada (“livre”) e as mudanças das grandes cidades desde o final do século XIX. Nas primeiras décadas do século XX, os trabalhadores organizavam-se em sindicatos revolucionários e moravam geralmente em vilas operárias, construídas pelos patrões para controlar os trabalhadores e maximizar seu lucro. Este, por exemplo, foi o caso do bairro de Vila Isabel. É nessa época que a cidade do Rio de Janeiro conhece uma diferença gritante: por um lado temos bairros operários superlotados e moradias pauperizadas, cortiços, onde os trabalhadores se espremiam e por outro, casarões e mansões, onde ricos empresários viviam. Os desmandos das elites e dos patrões também eram frequentes. O “bota abaixo” de Pereira Passos despejou e derrubou cortiços, tudo para adaptar a cidade aos “padrões” capitalistas europeus. Muitos trabalhadores buscaram os morros e comunidades para poder sobreviver, enquanto o salário era cada vez mais achatado (época da luta contra a “carestia”, que era o aumento do custo de vida).
Nunca houve um projeto de moradia popular pelo poder público que privilegiasse as demandas dos trabalhadores. Políticas como o Minha Casa Minha Vida não contemplam os pobres, mas um setor da classe média que também acaba não conseguindo pagar todo o valor dos apartamentos que podem chegar a 400 mil reais. Vê-se que são as empreiteiras que saem lucrando e constroem imóveis de péssima qualidade.
Desse modo, os pobres foram marginalizados nas periferias e encostas ou eles próprios se organizaram e reafirmaram a ocupação desses territórios. Nas décadas posteriores ao “bota abaixo”, o desenvolvimento industrial causado pelo fim da Primeira e Segunda Grande Guerra modificou os traços do “rosto” da cidade do Rio. Apesar de grande riqueza gerada pela produção industrial, os trabalhadores não tiveram acesso a ela. A solução, além da ocupação de morros e encostas, foi morar em bairros afastados dos locais de trabalho, subúrbios, bairros que seguiam a lógica de reprodução do capital (ou seja, não são feitos para o bem-estar dos trabalhadores).
Muitas associações de moradores e movimentos populares surgiram e atuaram na década de 60, 70 e 80, vivendo muitos anos sob uma ditadura militar. Muitos desses movimentos também foram cooptados por partidos políticos na abertura “democrática”. Alguns deles foram a base da formação do Partido dos Trabalhadores (PT), que, depois que escolheu a estratégia de tomar o poder, deixou o trabalho de base comunitário abandonado ou trocou esse por cargos políticos no governo. Mesmo com a eleição de um “ex-operário” e ex-morador de periferia, nossos problemas não foram resolvidos, já que a política que o PT realiza é a da conciliação de classes onde só a burguesia e seus lacaios saem beneficiados.
E esta política se articula, conforme a necessidade e conveniência, nos níveis local, nacional e continental. São os empreendimentos de Eike Batista e empresas como Odebrecht, impulsionadas a transnacionais com nosso dinheiro via BNDES. São os mega-projetos como o Porto do Açu, sanilizando a água, despejando e matando moradores para o avanço da ganância. Ora vão se articulando nacionalmente e localmente pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), ora beneficiando o empresariado continental com o Plano IIRSA (Iniciativa para Integração da Infraestrutura Regional Sul), com estradas, barragens e portos passando por cima de comunidades populares.
No campo, a reforma agrária estagnou-se com o governo Lula-Dilma. E os assentamentos encontram-se abandonados pelo governo que os submete à precariedade: sem acesso à luz e saneamento, além de expostos à violência da grilagem e interesses das máfias locais. O descaso do governo PT tem culpa na morte dos companheiros Cícero Guedes e Regina dos Santos Pinho assassinados no início de 2013 no estado do Rio.
Na área urbana temos o avanço da especulação imobiliária acompanhada dos Mega-eventos (Copa de Futebol de 2014 e Olimpíada de 2016) e do controle e repressão dos favelados com a política de segurança pública apoiada por Eike e pelo empresariado. Junto com o controle e a violência do Estado vem os abutres das empresas de TV a cabo, banco, telefonia móvel e prestadoras de serviços querendo lucrar com a invasão das favelas.
Na questão indígena o descaso governamental é gritante para com a Aldeia Maracanã, cujos povos têm seus territórios invadidos pela voracidade do agronegócio, das madeireiras e dos latifúndios. Falta uma política de saúde digna aos indígenas.
Os resultados para o povo dessa política nefasta são muitos: falta de saúde, luz, espaços de lazer… Há ainda fechamento de escolas, carência de transporte, educação etc. As periferias, as favelas e os bairros de trabalhadores sofrem com o descaso do governo, a especulação imobiliária, a ganância dos capitalistas, as chacinas e a violência policial, a falta de serviços básicos, a distância muito grande do trabalho, os transportes precarizados, o que faz do espaço comunitário um espaço de luta e resistência! Pois onde há problemas e descaso do poder público, há trabalhadores(as) se organizando e lutando para resolvê-los! São exemplos disso os mutirões, atividades de produção coletiva, rádios livres, atividades culturais, feiras e festas populares de rua, manifestações e mobilizações contra a violência do Estado e por serviços básicos.
E por isso é necessário a ocupação pelo povo dos numerosos prédios públicos e espaços ociosos que deveriam servir para a moradia da população pobre. Mas o que vemos é o poder publico fazendo o jogo da especulação imobiliária em áreas como a Zona Portuária e os prédios da União, onde estão sendo gastos milhões para serem entregues ao empresariado. Centenas de moradores estão sendo e serão despejados destas áreas, e a construção de casas populares fica por conta de empresas através de um balcão aberto pelo governo, que na verdade não as quer fazer.

3) A Luta Comunitária e Popular de Base e os Desafios que teremos
Quando atuamos no bairro, na favela, na periferia, no campo e nas ocupações, pensamos nos seus lugares, na sua gente, no seu imaginário e na forma de se organizar para lutar. Lutar para resolver os problemas do nosso povo, problemas que foram criados pelo Capitalismo e que não serão resolvidos pelos governos sem pressão popular e mobilização coletiva. Já dizia uma faixa numa manifestação: “Político é como feijão, só funciona na pressão”. Não adianta nos iludirmos esperando que aqueles que criam os problemas e beneficiam-se deles serão os que nos ajudarão a resolver nossas questões.
Enfrentamos uma produção ideológica fortíssima de um sistema social de dominação que joga o povo contra si, ou tenta ensiná-lo a ser “empreendedor”. O que não significa incentivar iniciativas de economia popular coletiva ou de trabalho de ajuda mútua, mas iludir o povo de que a mudança do real estado de coisas é individual, explorando seus iguais. Enquanto isso, os que estão em posições de poder se aproveitam da exploração e dominação para impor o seu reinado. Neste sentido, nos formamos no calor das dificuldades que encontramos para organizar nosso povo. Na favela e nos bairros da periferia há ONGs, em sua maioria, vivendo da miséria sem denunciar qual é a sua causa ou, pior, explorando o povo com o apoio de empresas. E a esquerda em sua maioria se ausentou faz tempo da atuação em comunidades, favelas e periferias. Há muitas igrejas, há políticos de direita e seus currais eleitorais, mas são poucos os movimentos sociais. Apesar de minoritários, esses movimentos sociais resistem, geralmente com independência, articulando questões sociais e manifestações culturais.
Há tantas ONGs, principalmente em favelas, que é comum que muitos moradores tenham dificuldade em saber a diferença entre elas e os movimentos sociais. Mas ao contrário das ONGs, nossa luta é no cotidiano, não sustenta “profissionais” remunerados, nem trabalha de forma assistencialista. É autônoma e não depende nem busca financiamento governamental ou privado. Enfrentamos também o individualismo e a apatia política criada por este sistema que só nos quer ativos nas eleições e trabalhando de segunda a segunda no resto do ano.
Queremos construir um povo forte e organizado. Nossos métodos e princípios de trabalho são a democracia direta, a defesa da independência política das instâncias de base, a autogestão, o apoio mútuo, o federalismo.
Somos desempregados, estudantes, professores, camelôs, donas de casa, vizinhos e vizinhas, camponeses, sem-teto, quilombolas, índios, pescadores, ribeirinhos! O que nos une é o fato de termos escolhido um lado, o lado dos trabalhadores e trabalhadoras, dos oprimidos e oprimidas. Sabemos que não vai ser só o trabalho comunitário que mudará a sociedade. Precisamos de sindicatos fortes, movimentos de trabalhadores rurais fortes para poder construir o poder popular! Mas sem a atuação nos locais de moradia dos trabalhadores não temos como avançar.
Quais são as necessidades do nosso povo? Como podemos resolvê-las juntos, agregando cada vez mais trabalhadores(as) para nossos movimentos sociais? Como podemos construir um movimento comunitário e de base que dê soluções para os problemas da nossa comunidade? Quais são as ferramentas de luta que temos e que podemos usar? Como podemos construir um movimento popular e comunitário que una os trabalhadores(as) do morro e do asfalto?

Frente Estudantil

Breve Introdução do Sistema Educacional

O Capitalismo é um sistema no qual poucos têm muito e muitas(os) têm pouquíssimo. Mas o que é esse “muito”? Esse “muito” é: terra, alimento, água, saúde, lazer, transporte… e entre esses “muito” está o poder. Os poucos (elite) que detém o poder subordinam todos os demais para que estes sejam explorados e mantenham as riquezas da minoria.
Vemos isso na produção de aparelhos fúteis como smartphones, tablets etc. que são produzidos por mão de obra extremamente barata, que inclui crianças (!), para satisfazer necessidades de consumo construídas pelos mecanismos de controle (TV, rádio, propaganda). Os preços absurdamente altos dessas bugigangas enriquece mais ainda os patrões/empresários/elite.
Nessa progressão simulada acima se notam algumas palavras-chave: subordinar, mãos de obras baratas, consumo, satisfação e enriquecimento de patrões/empresários/elite. Portanto:
No sistema atual (Capitalismo/Neoliberalismo) é necessário subordinar a maioria das pessoas para que estas sejam mãos de obras baratas, consumam, satisfazendo-se com coisas superficiais (“prazeres” individuais) e percam o foco sobre o enriquecimento dos patrões/empresários/elite que só é possível com miséria, sofrimentos e mortes.
Um dos mecanismos que é responsável por fazer pessoas aceitarem as afirmações que mantém o Capitalismo (castrando-as ou fazendo-as gostar da crueldade desse regime) é a educação, mais especificamente o Sistema Educacional. É esse sistema que criará a nova “leva” de mão de obra desempregada (que, ao aumentar, torna as pessoas sedentas por qualquer vaga de subemprego, pois a mão de obra crescente não é acompanhada de aumento de oferta de trabalho, o que barateia toda a mão de obra). É também o Sistema Educacional que criará os novos membros da elite.

Escola: O Microcosmo da Sociedade

A escola, por ser criada, financiada e legalizada pelo sistema capitalista, não poderia deixar de reproduzir a estrutura da sociedade burguesa. A subordinação é ensinada dentro de sala de aula e é a matéria principal (dá pra perceber tal importância, vendo que a subordinação é ensinada em todas as disciplinas e a todo o momento dentro da escola). Uma ex-aluna ou aluno sem a prática da repetição esquece em alguns anos todos os “ensinamentos” colocados em sala de aulas por cada disciplina, mas essa aluna/aluno jamais esquecerá a ordem, a hierarquia, a submissão, o medo e o respeito à autoridade.
Na escola será ensinado a se ver a outra aluna/aluno apenas como mais um concorrente (alguém que gera ameaça) dentro e fora de sala – o aluno será visto apenas como um sujeito que nos pode atingir (fisicamente e psicologicamente) de maneira que nos torne vulnerável e nos enfraqueça na “concorrência”.
Na escola será naturalizada a obediência (e hierarquia), começando pelo professor até chegar ao diretor/reitor. Na escola será ensinado que o que é “capitalizado” (privado, pago, objeto de consumo) é melhor – essa visão criada vai ser responsável pela aceitação da falta de qualidade no ensino público, que acarretará a “peneira social” que, futuramente, tolherá o acesso à universidade. Na escola será ensinado que a resolução dos problemas está dentro do próprio sistema, na troca de diretores/reitores (eleição) e no dialogo contínuo com essas figuras hierárquicas, esperando que as coisas sejam definidas sempre de cima para baixo.

A Escola e a Divisão da Sociedade

As escolas já possuem, em seus papeis pedagógicos, objetivos que as dividem conforme a necessidade da formação de elites e de mãos de obras. Esses objetivos atualizam a pirâmide social, recolocando os sujeitos de acordo com suas posições na pirâmide.

“Com o objetivo geral de dar um salto na qualidade da Educação no Rio de Janeiro, a Secretaria Municipal de Educação tem como missão a elaboração da política educacional do município do Rio de Janeiro, coordenar a sua implantação e avaliar os resultados. Dessa forma, a SME vai assegurar a excelência na Educação no Ensino Fundamental e na Educação Infantil, de maneira a contribuir para formar indivíduos autônomos e habilitados a se desenvolver profissionalmente e como cidadãos.” (Objetivo da Secretaria Municipal de Educação – RJ, vide: http://www.rio.rj.gov.br/web/sme/exibeconteudo?article-id=94101)

“Art. 2º. Além de constituir-se em campo de experiências do ensino de 1º. e 2º. Graus e de aperfeiçoamento de pessoal destinado à constituição de seu corpo docente, o Colégio Pedro II tem por finalidade:
I – ministrar ensino de 1º. e 2º. Graus;
II – desenvolver a cultura filosófica, científica, literária e artística, que possa servir de base a estudos mais elevados de formação moral e cívica;
III – promover a formação intelectual dos adolescentes, bem como a formação moral e cívica”
(Objetivo do Colégio Pedro II – federal – presente em seu Regimento Interno)

“Art. 3º – A Fundação de Apoio à Escola Técnica – FAETEC, inspirada na universidade do saber e nos ideais democráticos de solidariedade humana, tem por objetivos:
I- criar, preservar, organizar, fomentar e disseminar o saber científico, tecnológico e cultural por meio do ensino, da pesquisa e da extensão;
II- oferecer ensino público e de qualidade, sem discriminação de qualquer natureza;
III- formar cidadãos capacitados para o exercício da profissão e da investigação nos diversos setores da economia;
IV- oferecer Educação Profissional articulada com a Educação Básica e com a Educação Superior, considerando o avanço do conhecimento tecnológico e a incorporação crescente de novos métodos e processos de produção e distribuição de bens e serviços;
V- oferecer Educação Superior e Programa Especial de Formação Pedagógica e
IV- promover a integração institucional e de seus agentes, interagindo com a sociedade, em especial, com o setor produtivo e com as instituições públicas e privadas”
(Objetivo da FAETEC – estadual – presente em: Regimento Geral da Fundação de Apoio à Escola Técnica)

Pode-se notar a preocupação dessas escolas de esferas diferente pela formação do “cidadão”. Mas será que essas cidadanias são iguais? Será que o cidadão do colégio municipal (escola amplamente aberta e com pouca qualidade de ensino) será igual ao do Pedro II (colégio federal e com forte processo de elitização)? Obviamente que não. Essa “divisão do saber” tanto se aplica internamente (e se acentua do municipal para o estadual, do estadual para o federal ou para o ensino privado), como externamente aos países (a educação da América latina tem como objetivo tradicional formar mão de obra barata para atender aos “antigos/novos colonizadores do mundo desenvolvido”).

O ingresso ao Ensino Superior pelo Vestibular

A educação no Brasil sempre foi algo direcionado à manutenção da elite financeira como preponderante intelectualmente. O Estado brasileiro tem o entendimento de que o conhecimento deve ser erudito, na contemporaneidade, exclusivo aos que possam pagar por tal. Isso ocorre pela influência da ideologia neoliberal, pela qual toda e qualquer instituição é vista como um negócio e precisa de um funcionamento empresarial. O Estado precisa lucrar, logo a escola precisa dar lucros e a universidade não foge à regra.
Desde antes de 1911, quando o vestibular se torna obrigatório com a desculpa de que não havia espaço no ensino superior e por isso precisava haver uma forma de seleção, a elite já podia passar para uma faculdade do Império, ou seja, a forma com que o Estado trata a educação no Brasil já faz parte de sua cultura. Com a era do Neoliberalismo isto apenas se exacerba. Em um sistema educacional público extremamente precarizado desde a infraestrutura das escolas, com um financiamento ridículo (ainda sofrendo com desvios de verbas), professores e funcionários mal remunerados, o problema se alastra com a influência da ideologia neoliberal que propõe cada vez mais terceirizações – a terceirização põe o trabalhador em um estado de insegurança, que impede-o de questionar e protestar por melhor salário ou condições de trabalho.
É só ver como foram tratados os professores que entraram em greve por aumento de salário e melhores das condições de trabalho em 2013, com a truculência do braço repressor do Estado. Quando está em questão defender o capital, a educação se torna “assunto de polícia”. Porque é interessante para o burguês que o pobre não vá para o ensino superior.
O ENEM é o modelo de vestibular atual, o qual visa ser uma forma “mais democrática” de seleção que englobe todo o país. Mas não dá para deixar “mais democrático” algo como um vestibular, que em sua essência é algo segregacionista, simplesmente por ser um processo seletivo.

Cotas

O sistema de cotas seria uma forma de proporcionar chances de ingresso no ensino superior àqueles que sofrem desvantagens econômicas e sociais criadas pelo próprio sistema capitalista. Porém lida apenas com o âmbito político e não propõe real mudança social, tem seus resultados limitados à estatística do Estado apenas. A pessoa até pode ser incluída, mas não se tem investimento para que continue na universidade.
O Estado é expressão da dominação política da burguesia e não tem interesse em transformar a sociedade. Então por que das cotas? Michel Foucault, filósofo francês, coloca muito bem as questões referentes ao conhecimento criado pelo Estado. Ele entende que a burocracia funciona a fim de satisfazer sua própria manutenção, por isso usa de diversas estratégias de poder para se manter. Afinal, as cotas deveriam ser entendidas como uma medida paliativa até a dissolução do problema da desigualdade no acesso à universidade. O que acontece na realidade é uma politicagem eleitoreira com o discurso de transformação. A dualidade da prática com o discurso tem sido comum no governo PT. Há um objetivo político de manutenção da ordem, disfarçado de um discurso de benevolência e luta por igualdade. Enquanto isso, não existe projeto de transformação com o sistema de cotas.
Como poderia o mesmo Estado que segrega e marginaliza deliberadamente, em uma epifania de bondade, querer reinserir na sociedade grupos que ele mesmo desprezou e até hoje trabalha a segregação?
Quem segrega e marginaliza é o mesmo Estado que agora dá oportunidade a pessoas negras, de baixa renda e pobres – oportunidade que ele continua podando através de técnicas de dominação. Ele mesmo oprimiu e reprimiu essas pessoas a vida inteira para que fossem excluídas e partissem de uma posição desvantajosa em relação à burguesia.
As cotas podem até mostrar mudanças efetivas no acesso proporcional ao ensino superior (apesar dos processos burocráticos das próprias universidades), porém está longe de igualar o abismo de diferença existente na sociedade. Elas não resolvem o problema, pois este é intrínseco à mecânica do Estado e não é de interesse dele transformar esta realidade. É preciso entender o problema em torno das cotas, de um Estado que reproduz a desigualdade no cotidiano e ao mesmo tempo discursa hipocritamente contra sua própria prática.
Além de todas as questões em cima das cotas, tanto positivas quanto negativas, na prática a própria burocracia das universidades impede a concretização da proposta original – ao em vez de balancear o acesso, a própria universidade acaba por fazer a manutenção de um espaço cada vez mais elitista. Os alunos cotistas e bolsistas são praticamente invisíveis aos olhos da burocracia burguesa. Calotes e atrasos de bolsa são frequentes e fazem parte da mecânica administrativa das universidades públicas no Brasil.

Realidade do Movimento Estudantil Hoje

Atualmente o movimento estudantil passa por uma crise, com grande desmobilização e enfraquecimento. Essa desmobilização está relacionada principalmente a sua estruturação altamente burocrática e a forma como alguns grupos políticos enxergam-no.
O movimento estudantil, atualmente, sofre com a hierarquização e burocratização feita nas entidades estudantis (UBES, UNE, ANEL, AERJ etc.) e em alguns grêmios que subordinam toda diversidade das bases estudantis a gabinetes e direções. Além dessa subordinação, que tira a autonomia das bases, essas entidades (e alguns grêmios) são usadas como trampolim político de partidos, o que gera uma dualidade nos objetivos.

Centro Acadêmico

O Centro Acadêmico é a entidade organizada pelos estudantes universitários reconhecida pela reitoria, um pouco semelhante aos Grêmio Estudantil (secundarista). É onde se debateria e deliberaria questões de assistência estudantil ou de luta política interna e externa à faculdade, representando sempre apenas seu respectivo curso, como Filosofia, História, Ciências Sociais etc.
Para abranger todos os cursos da universidade, os estudantes se organizam individualmente no Diretório Central Estudantil, também reconhecido pela reitoria que seria responsável por representar todos os estudantes da universidade. Porém, não é o que acontece na grande maioria das universidades, pois a maioria é dominada por partidos burocráticos, desinteressados pelas demandas estudantis. O que deveria ser uma entidade representativa dos estudantes, e construída por eles, acaba por ser um espaço burocrático de disputa de egos.
Além do DCE, existe em algumas universidades o Conselho de CAs que funciona por delegação e visa ser uma alternativa aos DCEs burocratizados. Porém, na realidade, isto não acontece. Os CAs também são, em sua grande maioria, inteiramente cooptados por partidos oportunistas, eleitoreiros e burocráticos, interessados em disputar ego em vez de organizar uma construção que seja de fato pela base.
Em uma visão mais geral das entidades e espaços estudantis, aparentemente não há uma verdadeira organização combativa que represente de fato os universitários.
Ter um CA e um DCE combativo é muito importante, porém estas entidades não devem ser entendidas como o único meio. O importante é estar bem organizado pela base, seja através de Assembleias de Base, como Movimento Estudantil ou agrupamentos de tendência. Os estudantes precisam se auto-organizar para garantir horizontalidade e potencializar seu poder de transformação. A burocracia impede todo tipo de ação revolucionária ou acadêmica, afinal é o próprio significado do termo, “impedimento da ação”. É mais importante garantir a luta dos estudantes dentro e fora da universidade do que disputar a entidade simplesmente pelo controle dela.

Da Necessidade da Organização do Movimento Estudantil

Em decorrência da utilização da educação como meio de fortalecer a individualização, a concorrência, a exploração, a subordinação, a hierarquia, o consumo, entres outros estigmas da sociedade capitalista, e assim perpetuar e reproduzir a pirâmide social, é de extrema importância que os estudantes, que são a categoria mais submissa na hierarquia escolar, organizem-se como trabalhadores para ter força na luta por liberdade, igualdade e autonomia.
Para extinguir todos os malefícios impostos à classe trabalhadora, que é dividia e a submetida à burguesia, é necessário começarmos pela construção da escola de forma diferente da automatização que temos hoje e que está apenas em favor do Capitalismo. É necessário pôr fim à hierarquia e substituí-la pela autonomia; é necessário pôr fim à individualização e construir a solidariedade; é necessário acabar com uma educação meritocrática, positivista e tecnicista, e erguer-se uma educação livre, capaz de estimular os estudantes, atender suas necessidades e ajudá-los a se desenvolverem plenamente como indivíduos, mas indivíduos inseridos em uma coletividade.
Além disso, é necessária a integração entre todas/todos as/os trabalhadoras/trabalhadores e estudantes, visto que estes são futuros trabalhadoras/trabalhadores. Sendo assim, devemos lutar lado a lado pelo fim do sistema capitalista e suas mazelas e pela construção de uma Educação (e sociedade) igual para todos, livre de qualquer forma de subordinação (gênero, etnia, cultura etc.).

Frente Sindical

No início de 1980, os trabalhadores reunidos em encontros estaduais, os ENCLATs, criaram alguns documentos que deveriam ser analisados em um encontro nacional. No ano seguinte, houve a Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, (I CONCLAT). Desta surge uma Comissão Pró-CUT e se evidencia uma ruptura entre os setores mais radicalizados e a antiga burocracia sindical. Em 1983, com o nome de Congresso Nacional da Classe Trabalhadora (também sob a sigla de I CONCLAT), os grupos à esquerda organizaram as bases para a criação da Central Única dos Trabalhadores. Esta nasce com um estatuto provisório que destaca sua independência dos patrões, do governo, dos partidos políticos e dos credos religiosos, além defender: autonomia e liberdade sindical, organização por ramo de atividade produtiva e organização por local de trabalho (as “comissões de base”). Porém no III CONCUT (1988) a tese política apresentada pela corrente Articulação – ligada ao PT – ganhou a maioria dos votos do plenário. A corrente conhecida como “CUT pela Base”, que defendia as teses do estatuto provisório de 1983, foi derrotada. Assim a burocracia sindical ganhou, definitivamente, a Central Única dos Trabalhadores.
Hoje, esquematicamente, vislumbramos três modelos de sindicatos:
1) Sindicatos colaboracionistas, que representam mais claramente os interesses do governo/patrões, subordinando sua política a postulados puramente economicistas, vendo o governo como um interlocutor legítimo: instância imprescindível à resolução dos problemas.
2) Sindicatos corporativos, que apresentam certo grau de combatividade, sem ver como determinante o diálogo com o governo. Embora entendam a posição que ocupam no cenário da luta de classes, ainda que buscando o enfrentamento, o fazem a partir de uma pauta quase exclusivamente econômica, aproveitando as crises e as agendas eleitorais para arrancar do governo as melhorias imediatas.
3) Sindicatos de resistência que, embora busquem atender as necessidades imediatas de seus filiados, sustentam a necessidade do enfrentamento mais claro e efetivo ao Estado burguês. Utilizam o corte classista para explicitar o fosso que separa a classe trabalhadora daqueles que a exploram. Pensam o sindicalismo como um meio importante para que os trabalhadores combatam o sistema que os oprime.
São tarefas que temos de assumir: o fortalecimento do aqui denominado sindicalismo de resistência, e o combate à burocracia.
Buscamos a supressão da divisão da sociedade em dirigentes e executantes, o que significa, ao mesmo tempo, poder popular em todos os níveis – na fábrica, na economia, na sociedade – e fortalecimento dos organismos de classe: comitês de fábrica ou conselhos. Tais organismos de classe não podem ser correia de transmissão de nenhum partido, qualquer que seja a sua ideologia. O caráter burocrático de grande parte dos sindicatos atuais é bastante evidente já em sua própria estrutura e no tipo de relação que mantêm com a massa operária: esses organismos formam, ou tentam formar, direções separadas dos trabalhadores, reduzindo-os a um papel passivo, tentando dominá-los, reproduzindo uma profunda divisão entre dirigentes e militantes (ou contribuintes) em seu próprio seio.
A questão da autonomia, portanto, é fundamental para manter um órgão de classe fiel aos postulados emancipatórios sem afastar deste, por uma conveniência político-partidária, alheia quase sempre às necessidades dos trabalhadores, os objetivos de médio e longo prazo resultantes da experiência da classe.
Hoje, além dos sindicatos, encontramos, como espaço de aglutinação de lutas do povo, os chamados “movimentos sociais”, onde se articulam sem-teto, sem-terra, grupos étnicos e outros, em torno de demandas específicas.
A aproximação do sindicato a esses movimentos deve ser estimulada, pois estes, hoje, podem servir de horizonte para o reforço de algumas práticas de autonomia. A despeito da participação de militantes com duplo vínculo – partidário e ativista de classe – a dinâmica organizativa e mesmo setores hostis ao atrelamento partidário contribuem sobremaneira para dificultar o processo de burocratização.
Vale salientar, entretanto, que a relação a ser estabelecida com os chamados movimentos sociais deve se constituir de maneira horizontal. Isso implica que não há de existir uma subordinação dos sindicatos aos interesses imediatos dos movimentos sociais, sob argumento de que estes trariam em si supostos anseios genuinamente populares, em contraposição às demandas sindicais, tidas por necessariamente corporativistas, reformistas ou pouco relevantes em relação a transformações sociais mais profundas. Da mesma forma, não se pode considerar os sindicatos como o motor das conquistas sociais, acreditando num suposto protagonismo revolucionário inato do trabalhador formal urbano e suas entidades de classe.
Assim os sindicatos não podem ser encarados como meros apoiadores das lutas populares empreendidas por sem-terra, sem-teto, desempregados, grupos étnicos descriminados e outros. Também não pode a luta sindical minimizar ou negligenciar essas bandeiras, crendo que todas as questões de gênero, discriminação, desemprego etc. se resolverão como que magicamente com o avanço da luta do proletariado, tido como sujeito histórico por excelência.
Que os movimentos sociais não se subordinem às organizações sindicais, e nem o inverso. Se os sindicatos têm comumente uma estrutura mais estável em termos de logística e finanças, isso não justifica em hipótese alguma que venham a ser encarados de forma utilitária, como um local para simplesmente se colher recursos financeiros ou estruturas para atividades cuja correlação com as demandas da categoria que o sindicato congrega nem sempre são estabelecidas.
E é justamente nessa correlação entre sindical e social que é importante dar ênfase. Esse fluxo entre as duas esferas de atuação na sociedade irá revigorá-las, não sendo, portanto, apenas uma delas que receberá o sopro renovador vindo da outra, numa relação de dependência ou dominação. O objetivo a ser alcançado é que aprendam e evoluam juntas, que se irmanem mesmo. Ressalte-se, inclusive: o sindicalismo é, necessariamente, também um movimento social.
Neste aprendizado mútuo, as classes dominadas vão se articulando, de várias maneiras, rumo à superação do sistema de iniqüidades em que vivemos, e isso é perfeitamente natural. Para termos clareza dos âmbitos de atuação em que nos inserimos e qual a prática mais condizente a cada um deles, cabe agora tratarmos, ainda que esquematicamente, do que entendemos como âmbitos de organização.
Simplificadamente, podemos identificar três âmbitos de organização. São eles: 1) âmbito social; 2)âmbito político-social; 3)âmbito político.
1) O âmbito social é aquele das organizações populares e de massas, organizações que agrupam um único sujeito popular de luta, independente de suas posições políticas. Deste âmbito fazem parte: sindicatos, conselhos estudantis, organizações comunitárias, movimentos contra opressões de gênero, etnia, opção sexual etc. Neste campo se deve buscar a unidade da maneira o mais ampla possível, rechaçando sectarismos e respeitando as diferenças ideológicas. A unidade irá se dar em torno de demandas concretas e serão privilegiados os objetivos de curto prazo. Isso não significa, em absoluto, o abandono de objetivos de médio e longo prazo, mas tão somente que – aqui, propriamente neste campo de atuação – o que estará em questão será, principalmente, a luta contra uma opressão específica e imediata. Nesta peleja são bem-vindos indivíduos de correntes políticas diversas. Estas podem legitimamente ser propagandeadas no seio da organização, mas nunca com a pretensão de instaurarem alguma espécie de “ideologia oficial” do movimento, pois o objetivo é que ele se fortaleça, independente de concepções filosóficas, religiosas ou políticas (em sentido estrito) de cada militante.
Aqui se milita em torno de demandas concretas, fazendo a denúncia constante das contradições sociais. Daí, é natural que essas organizações se politizem (em sentido amplo, considerando-se que todas as relações sociais implicam, também, relações de poder, logo, políticas) nos embates cotidianos e no natural curso da luta de classes. Sem importar o quão “politizadas” estão essas organizações, elas não podem jamais confundir-se com um grupo político ou com uma tendência (grupamento político-social). E devemos ter sempre claro que nosso objetivo é que nossas ideias influenciem amplamente, mas que devemos evitar impor etiquetas ideológicas sobre estas organizações, e assim impedir expurgos ideológicos – particularmente dos setores minoritários.

2) Âmbito político-social é o das tendências, redes, correntes ou frentes. Ele representa um nível intermediário em que se aglutinam elementos de um sujeito popular específico, mas que têm em comum certas linhas políticas. Este último ponto marca a diferença mais sensível em relação ao âmbito social. Esta inclinação política não pode ser, em todo caso, tão definida como àquela requerida para o pertencimento a um partido ou grupo político. Certos militantes ou ativistas que partilham duma mesma visão e que compartilham políticas em relação ao ponto específico que lhes une (seja a atividade sindical, estudantil ou comunitária), podem organizar-se para formar uma certa corrente no seio de um movimento ou organização maior. Seria, nesse caso, uma afinidade maior no campo da metodologia o que uniria esses militantes na atuação no meio social em que estão inseridos. Teriam suas bases de acordo e alguns pontos políticos comuns, bem explicitados, não adotando um corte ideológico definido (nem expresso, nem veladamente). Não é necessário concordar em tudo: aqueles que compõem essas frentes podem estar em desacordo sobre muitas outras questões que não afetem a luta específica nem o trabalho cotidiano da organização da qual são membros e que, por isso, são irrelevantes para o nível de unidade requerido nestes espaços.
Uma tendência político-social pode atuar em vários campos da luta social e, para tanto, pode organizar-se em frentes. Estas terão uma autonomia relativa e obedecerão a uma estratégia geral da tendência. Elas podem reunir-se para deliberar sobre questões táticas e operacionais, visando melhorar a dinâmica da organização. Esta, neste caso, terá seus princípios bem claros, métodos de luta e modos de operar. Aqueles que se comprometerem com os pontos acordados, independente de se identificarem ou não com determinadas denominações ideológicas, poderão fazer parte deste tipo de grupamento político-social, do qual a OP (Organização Popular) é hoje um exemplo no Rio de Janeiro.

3) Âmbito político é aquele das organizações políticas em sentido estrito, ou partidos. Este âmbito é o mais específico de todos, e compõe-se de pessoas provenientes de diversos setores populares (estudantes, trabalhadores e outros), que compartilham de ideologia definida, orientação política, programa, táticas e estratégias próprias, bem como objetivos de longo prazo. As pessoas que estão neste campo de atuação são, normalmente, oriundas de espaços sociais diversos, e, por isso, o que as une mais é um ideal que se refere à transformação da sociedade como um todo. A unidade, neste âmbito, é muito mais restrita, envolvendo uma adesão a um determinado sistema de pensamento e uma clara identificação ideológica. Há acordo em relação a um programa coletivo de intervenção na sociedade, buscando sua transformação num dado sentido: um projeto, uma utopia – no sentido positivo da palavra.
E as utopias são, mais do que nunca, imprescindíveis; são elas que nos fazem caminhar. Assim, os grupamentos políticos não podem ser desvalorizados já de antemão, considerados organismos que, subrepticiamente, buscam deslocar as lutas do povo para outros campos que não contemplem suas necessidades presentes. Mas o fato é que tais grupos ou partidos jamais podem ter a pretensão de transformar movimentos populares ou tendências em meras correias de transmissão de suas diretrizes ideológicas, quaisquer que elas sejam.
A atuação deve seguir sempre de maneira harmônica e sincera no âmbito de qualquer dessas esferas de militância. Ninguém abandona sua ideologia ao militar no movimento social (e querer isso seria um autoritarismo extremo), mas nenhuma tendência político-social, sindicato etc. pode ser aprisionado a uma ideologia específica, pois isso só iria mesmo apequenar as lutas populares e sua salutar diversidade. E os próprios objetivos de longo prazo, que muitos de nós temos, só surgirão se as lutas se intensificarem com toda a pluralidade que lhes é natural.
Cada um desses níveis deve ter condições de realizar seu potencial, utilizando como requisitos fundamentais a democracia direta e a participação de base. Se os níveis político-social e social não podem servir como braços do nível político, que funcionaria, nesse caso, como cabeça do corpo, o contrário também não pode acontecer: que o nível político seja uma correia de transmissão dos outros níveis. A interação, portanto, tem que ser complementar e dialética.

Análise de Conjuntura

As manifestações aqui no Rio de Janeiro (RJ), assim como no resto do Brasil, vieram ganhando força desde meados de junho/2013. Já no dia 13, cerca de 10 mil pessoas estavam nas ruas do centro da cidade pedindo a redução das tarifas dos ônibus. O aumento que foi de “apenas” 20 centavos de real acabou chamando a atenção da população para outros tantos problemas. As primeiras manifestações se caracterizaram pela presença quase exclusiva de estudantes e setores marginalizados da sociedade como os sem-teto, por exemplo.
No dia 17 de junho, após muitas convocações pelas redes sociais e mensagens interpessoais, o ato marcado para a Candelária, centro do Rio, às 17 horas, ganhou volume inesperado. Os especialistas afirmam que lá estiveram mais de 100 mil pessoas. Dessa vez o público era mais diverso, além dos estudantes e sem-teto, o ato contou com a presença explícita de partidos políticos, que até o dia 13 haviam participado timidamente, além de outros setores da sociedade civil com pautas reivindicativas das mais diversas. Os sindicatos, se lá estiveram, não levaram suas bandeiras.
Todavia nesse ato era possível constatar que havia crescido também a participação de setores da direita. Grupos neonazistas se infiltravam nas colunas que percorriam a Av. Rio Branco, misturando-se à massa de manifestantes em simbiose com os agentes provocadores da polícia. Em certos momentos, esses extremistas de direita ensaiavam confrontos com os blocos de partidos e grupos anarquistas das mais distintas orientações.
Os partidos de esquerda (PSOL, PSTU, PCB, PCR, PSB e até o PCdoB, que é base de apoio do governo federal) por sua vez, bastante hostilizados pela generalidade dos manifestantes, acabaram por dividir a passeata em dois blocos. Fizeram isso principalmente porque não conseguiram tomar a dianteira da volumosa coluna. Partiram a manifestação em dois segmentos em flagrante descumprimento da defesa que formalmente fazem da “unidade” em momentos como esse. Um dado da realidade que, segundo entendemos, pesará contra eles em um balanço mais lúcido do evento.
A decisão dos partidos acabou, como em outras oportunidades, gerando uma alteração do percurso original decidido previamente. Por força do exposto, uma parte considerável da passeata dirigiu-se à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), local no qual o conflito entre manifestantes e a repressão policial se tornaria explícito.
Na Rua 1º de Março, endereço da Alerj, uma enorme quantidade de manifestantes, talvez 1/3 de toda a massa, iniciou um violento protesto contra aquele que parecia ser o símbolo máximo da injustiça social. A Assembleia que reúne deputados estaduais de quase todos os partidos legais no país passou a ser o foco da indignação coletiva. Logo, uma nada inédita parceria involuntária fez interagir, na ação radical, manifestantes e policiais infiltrados, os chamados P2, o que resultou no lançamento de coquetéis molotov contra o prédio da Alerj, bem como no incêndio de um carro que se encontrava na lateral do referido prédio.
Ainda que parte dessa ação contundente tenha como origem a intenção policial de provocar os manifestantes e seu consequente resultado venha na forma de ato radical, os ativistas lograram uma clara vitória ao sitiar a Alerj, empurrando para o seu interior um grupo significativo de policiais assustados, mesmo apavorados. Uma vitória que, a despeito das prisões e ferimentos de manifestantes (um inclusive alvejado por arma de fogo), marcou de forma importante o ato. Deu a este tal magnitude, que a mídia burguesa teve que – através de um invejável contorcionismo – explicar os fatos mesclando críticas a elogios. O jornal O Globo, por exemplo, reservou todo o seu primeiro caderno do dia seguinte ao evento dividindo o ato, assim com os partidos políticos, em dois blocos: a passeata “ordeira e cidadã” e a “Batalha da Alerj”, obviamente cobrindo de elogios o primeiro e de infâmia o segundo.
Para além do que aqui foi relatado, pode-se dizer que o ato colheu no dia 19 de junho uma primeira e importante vitória. O governo do Rio de Janeiro, Município e Estado, decretou a redução da tarifa, fez com que a passagem retornasse ao valor anterior de 2,75 reais. A redução alcançou também os bilhetes de metrô, trens e barcas. Uma vitória que, por si só, já justificaria o fim das manifestações, uma vez que o decreto governamental atende ao principal reclamo dos manifestantes. Entretanto o ato agendado para o dia 20 de junho não foi desmarcado.

20 de junho
Às 17h do dia 20 de junho começou a concentração para o protesto no Centro do Rio de Janeiro. Não parava de chegar mais e mais gente. Estima-se que estiveram presentes umas 900 mil pessoas protestando nesse dia na cidade. A maioria seguiu em passeata pela Av. Presidente Vargas. Um grande carro de som acompanhou a coluna, mas as palavras de ordem vindas dos manifestantes eram muito mais chamativas e plurais.
A caminhada seguiu até a prefeitura, onde houve confronto: a polícia jogava bombas contra a população desprotegida. O gás lacrimogêneo se espalhava por todo o centro da cidade, assim como o spray de pimenta usado indiscriminadamente contra a multidão.
Muitos tiveram que fugir até de armas letais usadas pela polícia. As regiões do centro, Largo do Machado e Flamengo foram as mais atingidas pela violência policial. A faculdade de Direito e o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) abrigavam jovens acuados por policiais militares. Bares e hospitais foram depredados pela polícia, fato que obrigou a própria mídia burguesa a divulgar as imagens destes acontecimentos. Mas, apesar de tudo (ou talvez até por isso mesmo), os protestos só fizeram crescer.

30 de junho
Aproveitando a final da Copa das Confederações a ser disputada num jogo entre as seleções brasileira e espanhola no estádio Maracanã às 19h, na cidade do Rio de Janeiro, a população voltou a protestar.
Ainda pela manhã, integrantes da Frente Nacional de Torcedores ocuparam por cerca de 30 minutos o prédio da nova sede da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), no bairro carioca Barra da Tijuca.
Por volta das 13h, mais de cinco mil manifestantes já se deslocavam pela Avenida Maracanã, no sentido da Rua São Francisco Xavier. Logo em seguida entram por ela. 16 vias nas áreas próximas ao Maracanã foram interditadas para dificultar o protesto. Somente veículos autorizados, relacionados ao evento e devidamente identificados tiveram permissão para circular nos trechos bloqueados, mesmo assim até pessoas com bilhetes para o evento desportivo acabaram barradas pela polícia: praticamente um estado de sítio na cidade do Rio.
Uma barreira policial impedia a passagem dos cerca de cinco mil manifestantes, tolhidos em seu “direito de ir e vir”, tão hipocritamente alardeado pelo dito Estado democrático de direito.
Por volta das 15h30min, concentrados na Praça Afonso Penna, no bairro da Tijuca, manifestantes divulgaram a pauta do protesto. Entre as reivindicações, estavam o fim do processo de concessão do Maracanã à iniciativa privada, a reabertura do Parque Aquático Julio Delamare e a reconstrução da pista de atletismo do estádio Célio de Barros, destruída na reforma do estádio para a Copa do Mundo de Futebol a ser realizada no Brasil em 2014. Uma grande bandeira, que cobria pelo menos 10 janelas de dois andares, foi estendida no topo de um prédio em frente à praça. Ela trazia a mensagem: “Unfair players: Fifa, Police, Cabral e Paes”, em referência aos governador e prefeito do Rio, brincando com a bandeira de “Fair play” da Fifa.
Às 16h os manifestantes que haviam sido impedidos pela barreira policial de chegar ao Maracanã, seguiram até a Praça Afonso Penna. Parte do grupo voltou à Praça Saens Peña, de onde se planejava a saída da segunda manifestação prevista para o mesmo dia. Pouco tempo depois das 16h, já se concentravam ali umas duas mil pessoas. A ONG “A Partir do Rio” aproveitou para protestar contra a operação policial de segunda-feira (24/06/13) na Favela Nova Holanda, que deixou um PM e nove moradores mortos. Lá pelas 16h30min, manifestantes começaram a protestar contra a Rede Globo de Televisão, por ocasião da presença dum grupo de filmagem desta emissora, já conhecida por apoiar a ditadura militar brasileira (1964-1985) e difamar movimentos sociais. A PM rapidamente defendeu a equipe jornalística, que, mesmo assim, deixou o local.
Apesar do forte policiamento na área (policiais militares, integrantes da Força Nacional e guardas municipais), às 17h manifestantes fecharam as pistas da Rua Conde Bonfim, no trecho em frente à Praça Saens Peña, na Tijuca, e seguiram em direção ao Maracanã. Abriram bandeiras com dizeres contra a Copa, o governador do estado Sérgio Cabral Filho e o prefeito Eduardo Paes.
Às 18h durante um espetáculo musical no Maracanã antes da partida entre Brasil e Espanha, um dos figurantes que estava dentro de uma das bolas que enfeitavam o gramado saiu do traje e, junto com outro participante, estendeu uma faixa pedindo a anulação da privatização do estádio. Em seguida estendeu-se outra faixa contra o preconceito aos gays alimentado também pela atuação do pastor Marcos Feliciano, detrator dos homossexuais, escolhido para presidir a comissão de direitos humanos e minorias da Câmara dos Deputados, com a conivência da Presidenta Dilma. O protesto surpreendeu os organizadores, que não conseguiram impedir que tivesse grande visibilidade.

2 de julho
Na terça-feira 2 de julho foi realizado um ato de solidariedade aos moradores da Favela da Maré (Rio de Janeiro, RJ) por conta do assassinato de 13 moradores pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). A solidariedade dos estudantes e outros movimentos populares reforçou a atividade que reuniu cerca de três mil pessoas numa das pistas da conhecida Avenida Brasil. Apesar do apoio, o ato acabou marcado pela interferência das ONGs (Organizações Não-governamentais, que na prática são atreladas ao governo política e financeiramente). Instituições locais, que se, em seu início, apoiaram a organização da atividade, tiveram uma atitude lamentável, ao monopolizarem os microfones, moderando as críticas políticas mais contundentes ou simplesmente proibindo moradores/as e organizações de esquerda de terem acesso ao carro de som. Ficou patente a necessidade de a favela falar sem intermediários e de se buscar a construção de movimentos populares fortes e atuantes nas comunidades pobres.
Ainda assim o ato foi bastante produtivo, servindo para politizar mais a questão do papel das ONGs e da falsa representatividade. Ficou entendido entre os movimentos populares mais genuínos ali presentes que as ONGs são entidades privadas, altamente hierárquicas e antidemocráticas e que elas não representam a ninguém, senão a seu próprio interesse (ou seja, o de seus diretores). Mas ainda que com limites, durante o ato, os protestos das ruas, os batuques da bateria, as palavras de ordem ecoaram mais alto do que o barulho do carro de som. O povo carioca gritou a plenos pulmões: “Fora (Rede) Globo! Fora (governador Sérgio) Cabral! Polícia para quem precisa! Estado que mata nunca mais! Pelo fim da Polícia Militar!”

11 de julho
Na quinta-feira 11 de julho no Rio de Janeiro, o grande diferencial que se deu em relação aos protestos anteriores foi a adesão do movimento sindical. Categorias aprovaram paralisações de 24h, o que viabilizou a participação de várias pessoas. Infelizmente a ação de centrais pelegas/amarelas atrapalhou bastante. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) e a CTB (Central dos Trabalhadores do Brasil) que se tornaram nos últimos anos correias de transmissão de partidos governistas (PT e PC do B, respectivamente) chegaram a denunciar alguns manifestantes para a polícia durante o ato.
Ainda assim, houve algum saldo positivo. Servidores dos Correios bloquearam a saída de caminhões da principal unidade da empresa. Houve também manifestações com paralisações de metalúrgicos e servidores públicos, além das escolas das redes estaduais e municipais. Houve ainda manifestações com paralisação de petroleiros, bancários e terceirizados da Secretaria da Saúde. Pela tarde, um protesto unificado reuniu quase 15 mil pessoas, apesar da intensa repressão da Tropa de Choque da Polícia Militar. Como das outras vezes, a utilização do gás lacrimogêneo e o feroz ataque das colunas da polícia contra os manifestantes marcaram a manifestação.

13 de julho
Manifestantes se concentraram na calçada em frente à Igreja do Carmo, no Centro da cidade do Rio, na noite do sábado 13 de julho. Ali, casaram-se Beatriz Perissé Barata, neta do multimilionário empresário dos transportes Jacob Barata, considerado o “Rei dos Ônibus” do Rio, e Francisco Feitosa Filho, herdeiro do ex-deputado federal cearense Chiquinho Feitosa. A noiva chegou e saiu sob vaias das cerca de 60 pessoas que se reuniram para o ato público contra o atual sistema de transportes do Rio.
O protesto continuou numa manifestação realizada na entrada do tradicional e luxuosíssimo Hotel Copacabana Palace, na recepção aos convidados à festa de casamento.
O protesto se inscrevia ainda no conjunto das muitas ações de rua contra a máfia dos transportes na cidade. Atendeu ainda à agenda dos grupos envolvidos na luta contra os governos do estado e do município do Rio de Janeiro. Com palavras de ordem e muito barulho o grupo tentou tornar evidente o inconformismo com a atual situação dos transportes públicos na cidade e a disposição em continuar denunciando nas ruas as iniquidades perpetradas pela parceria entre governo e empresários.

17 de julho
Dia 17 de julho de 2013, no bairro do Leblon (Rio de Janeiro, RJ), houve outro ato público contra o governador do estado Sérgio Cabral. A concentração de manifestantes contou, nas primeiras horas, com a participação de cerca de mil e quinhentas pessoas: número que cresceu após as 22h. Os presentes gritaram palavras de ordem contra a política de privatização do estádio do Maracanã, remoções e genocídio nas favelas, bem como contra a truculência policial. Não demorou para que o batalhão da PM, contrariando como de hábito as declarações das “autoridades de segurança”, iniciasse a repressão aos manifestantes que, segundo depoimentos, se estendeu pela madrugada.
Alguns manifestantes resistiram com pedras e morteiros, levantaram barricadas e as incendiaram, além de destruir a fachada de algumas propriedades corporativas, como a de um Banco Itaú e um prédio da Rede Globo, no bairro da Gávea. Houve também um saque à loja de roupas Toulon com o intuito de redistribuir as roupas entre os moradores de rua.
Estiveram presentes a OP (Organização Popular), a Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST), o SINDSCOPE (Sindicato dos Servidores do Colégio Pedro II), trabalhadores da CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgotos), servidores da educação da base do SEPE (Sindicato Estadual de Profissionais da Educação), alguns inclusive da cidade de Angra do Reis, militantes das favelas da Maré e Rocinha e ainda alguns partidos e grupos libertários.

31 de julho
Neste dia os manifestantes seguiram em passeata até o Ministério Público (MP) no Centro do Rio de Janeiro, onde foram recebidos pelo procurador-geral de Justiça do estado, Marfan Vieira.
Dali, eles seguiram para a frente da Assembleia Legislativa do Estado (Alerj), onde ocuparam as escadarias e realizaram um protesto.
Por fim, manifestantes foram à Cinelândia. Lá, pouco antes das 21h, um grupo de aproximadamente 20 pessoas ocupou Palácio Pedro Ernesto, sede da Câmara de Vereadores do Rio, entrando por um portão lateral. Outros ativistas ficaram do lado de fora porque policiais militares conseguiram bloquear a entrada.
O grupo que estava no interior do prédio estendeu faixas nas janelas, com dizeres contra a corrupção, charges ironizando a violência policial e frases contra o governador do Rio, Sérgio Cabral. Foram apoiados pelos manifestantes do lado de fora, que, inclusive, lhes passavam alimentos. A Polícia Militar desocupou violentamente o prédio, por volta das 22h30min. Após a expulsão, houve um grande tumulto do lado de fora, com policiais militares perseguindo alguns manifestantes, que foram agredidos com cassetetes.

9 até 21 de agosto
No dia 9 de agosto o prédio da Câmara dos Vereadores voltou a ser ocupado. A principal exigência dos manifestantes era a saída do vereador Chiquinho Brazão (PMDB) da presidência da Comissão parlamentar de Inquérito (CPI) dos ônibus, visto que ele se recusara a assinar o requerimento para a instalação da referida comissão, atrapalhando, portanto, qualquer investigação mais séria acerca da Máfia dos Transportes (da qual é notório apoiador).
Os ocupantes resistiram o quanto puderam com apoio de manifestantes do lado de fora. No entanto, o Tribunal de Justiça – em 20 de agosto – proferiu decisão determinando a reintegração de posse do prédio. Então, já desgastados, os manifestantes deixaram a Câmara de Vereadores por volta das 14h da quarta-feira 21/08, após a chegada de um oficial de justiça munido de mandado judicial.
Enquanto o grupo deixava a Câmara, cerca de 50 pessoas ocuparam o saguão do prédio onde funciona a sede da empreiteira Odebrecht, na Praia de Botafogo, na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Nele estavam militantes do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas e da Frente Nacional de Torcedores. Eles exigiam a anulação da privatização e a saída do consórcio do Maracanã, controlado pela empresa. O prédio foi desocupado por volta das 15h30min.

30 de agosto
O Centro do Rio de Janeiro foi o local escolhido para realização de manifestações na sexta-feira 30/08, dia que várias categorias profissionais aprovaram como data de paralisações. Por volta das 15h, líderes de centrais sindicais convocaram diversos trabalhadores que se reuniram na Central do Brasil. Outro grupo, constituído por sindicalistas, professores e estudantes, saiu da Candelária, no centro do Rio de Janeiro, em passeata pela Avenida Rio Branco, interditada por cerca de uma hora.
Na Central do Brasil os manifestantes pediam a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, o fim do fator previdenciário, entre outras reivindicações trabalhistas. O protesto durou cerca de duas horas.
Outro grupo que saiu da Candelária, também no Centro, exibiu faixas e cartazes para pedir a estatização dos transportes coletivos, saúde pública de qualidade, a desmilitarização da polícia, entre outras pautas sociais, além da saída do governador Sérgio Cabral. Eles saíram em passeata por volta das 17h40 rumo à Cinelândia, aonde chegaram por volta das 18h30min.
Após cruzarem a Avenida Rio Branco, os manifestantes ocuparam as escadarias da Assembleia Legislativa (Alerj). Por volta das 20h, houve passeata pela Avenida Presidente Vargas até o prédio da prefeitura, na Cidade Nova. A Avenida foi fechada em alguns trechos.
O protesto seguiu também pelo bairro da Lapa e só foi se dispersar completamente após as 22h.

7 de setembro
7 de setembro no Brasil é o feriado da Independência Nacional, uma farsa histórica evidente, visto que o povo permaneceu dependente e explorado pela burguesia nacional e internacional. É um dia em que as forças governamentais promovem desfiles militares, em que o Estado ostenta orgulhosamente seu aparato bélico. Felizmente, já há muitos anos, movimentos sociais realizam, nessa data, um evento crítico chamado Grito dos Excluídos. Trata-se de uma passeata (no mesmo local do desfile militar) em que se denuncia a falsa independência e a exploração burguesa e estatal.
A repressão ao protesto foi muito mais forte neste 2013. No Rio de Janeiro, pelo menos 77 pessoas foram detidas, segundo a Polícia Militar, e 14 se feriram, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde.
No Centro da cidade pela manhã, algumas famílias que assistiam nas arquibancadas à parada militar acabaram atingidas pela fumaça das bombas de gás lacrimogêneo atiradas pela PM. Ainda no Centro, por volta das 12h, houve mais violência policial e correria. Tiros de bala de borracha foram disparados. Vinte e sete pessoas foram detidas na região e levadas para 5ª DP (Gomes Freire), 12ª (Copacabana), 17ª DP (São Cristóvão), 19ª (Tijuca) e 21ª (Bonsucesso).
Mesmo assim continuaram ocorrendo protestos durante todo o dia em vários pontos da cidade (Lapa, Laranjeiras, Largo do Machado e Catete).

Ainda outras intercorrências
Os eventos se desdobraram ainda pelo interior do Estado, por Cabo Frio, Petrópolis, Teresópolis e outros municípios. Em Paty de Alferes, a população depois de um evento envolvendo a PM revoltou-se e ateou fogo a postos da Polícia e fechou rodovias. No município do Rio de Janeiro, os usuários de trens, furiosos com os constantes atrasos da concessionária privada, incendiaram composições e depredaram estações. Um verdadeiro movimento de revolta induzida pela conjuntura.
Em mais de uma oportunidade, durante os vários protestos que tiveram lugar no Rio de Janeiro, o Palácio Guanabara, sede do governo do Estado, foi sitiado por manifestantes e, em suas imediações, sucederam-se verdadeiras batalhas campais entre a Polícia Militar e os populares. Cenas de grande violência marcaram essas manifestações, que tenderam a crescer após a declaração de greve dos servidores da Educação do Município e do Estado do Rio de Janeiro, em 8 de agosto.
Acrescidos desse novo contingente, os atos de rua lograram ainda ocupar a Câmara dos Vereadores, por duas vezes, até 29 de setembro, bem como foi levantado um acampamento de servidores da Educação na frente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Um importante complemento ao conjunto de outras tantas iniciativas de rua que se verificam desde junho.

Da Frente Independente e Popular (FIP) e do Black Bloc
No início de agosto foi criada no Rio de Janeiro a FIP, com o objetivo de agregar algumas forças políticas e sociais em torno de táticas de ação direta. No resto do Brasil, esta mesma frente, ganhou o apoio da Liga Operária e Camponesa (LOC) e do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), ambas organizações de orientação maoísta. No Rio de Janeiro a frente conta com a presença de organizações anarquistas, União Popular Anarquista (UNIPA) e Organização Anarquista Terra e Liberdade (OATL), ambas de orientação insurrecionalista; o MEPR, a Rede Estudantil Classista e Combativa (RECC), a Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST) e a Rede Contra a Violência, estas duas últimas de caráter marcadamente social.
Em que pese o objetivo declarado de congregar em seu interior os grupos mais “combativos”, a FIP não alcançou o propósito de aglutinar todos os setores antiburocráticos e antigovernistas. Ainda que com uma pauta bastante radical, não foi capaz de plasmar em seu interior o consenso necessário para uma ação conjunta das forças mais claramente anticapitalistas. Sua principal consigna, pelo menos aquela mais perceptível nas manifestações, a de “Fora Cabral” – alusão a Sérgio Cabral, governador do Estado – e os atos de rua com confrontos com a Polícia Militar, não lograram criar as condições para uma efetiva frente de lutas.
No seu interior, todavia, o Black Bloc, que no início de junho havia se destacado na proteção dos manifestantes durante as passeatas, ganhou nova vocação. A tática de ação direta, já célebre pelos prodigiosos feitos em outras partes do mundo, passou então a frequentar atos convocados pela FIP. Passou a agir em seu interior como elemento de pressão contra a força policial, abandonou a dimensão da defesa, partindo para o ataque frontal, destemido e aberto contra principalmente a Polícia Militar.
Este novo posicionamento foi acompanhado por uma sucessão de atos de rua, de ataques ao Palácio Guanabara, sede do governo estadual, e de confrontos dos mais variados. No mês de agosto e ainda no de setembro, em uma apreciação esquemática, é possível afirmar que a FIP buscou encarnar o espírito da revolta, ainda que com um contingente numérico de indivíduos cada dia menor. Neste período, não foram poucos os militantes feridos das mais variadas formas.
Ainda que com problemas internos, já perceptíveis no início de setembro, foi inequívoca a importância da FIP no conjunto de fatos dos últimos três meses no Rio de Janeiro. Uma importância que não pode ser dissociada do movimento tático que é o Black Bloc, ao qual a frente será eternamente tributária por conta de sua notoriedade nos atos de rua.

Da intensidade e da densidade
Fora da FIP ficou outra importante organização, a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) e com ela o Movimento Passe Livre–RJ, o Movimento dos Trabalhadores Desempregados Pela Base (hoje denominado Movimento de Organização de Base – MOB), a Organização Popular (OP), as Assembleias de ruas e praças que apareceram após uma tentativa fracassada de aparelhamento partidário, bem como alguns movimentos de favela. Estes, ainda que sem críticas fundamentais ou demolidoras à FIP, preferiram investir tempo e energia na fundamental e necessária tarefa de organização das bases populares. Em articulação, diálogo, ou simplesmente tentado criar fronteiras diplomáticas perceptíveis com setores sindicais de base, estas organizações lançaram-se no esforço de construir um fórum de lutas mais declaradamente classista, horizontal, democrático e colaborativo. Um esforço que, para além da intensidade rebelde da FIP, desse ao presente contexto a densidade das massas. Um que possibilitasse a ação consubstanciada no debate meditado e urdido pela relação cotidiana da política social, do trabalho nas comunidades carentes, ocupações sem-teto e espaços sindicais. Algo que, apesar de tributário da conjuntura insurgente, não ficasse cativo dela, morrendo na medida do arrefecimento das manifestações de rua.
Esse esforço não desprezou as greves dos professores do Estado e do Município, deflagradas no mês de agosto, mas antes colaborou para que estas se somassem ao processo, dando, a ele, mais densidade. Foi por força desse conjunto de ações que a fração aqui mencionada conseguiu fundar um Fórum Popular de Apoio Mútuo, no qual estão sindicalistas de base, educadores populares, membros das assembleias populares das praças e ruas, militantes de mais de seis favelas e moradores de ocupações urbanas.
No campo da estratégia de massas, ao que nos parece, se a intensidade tem seu valor conjuntural e baseia-se numa urgência, a densidade ganha a sua justificativa na efetividade do processo.

Caminhos que elegemos
No caso da tendência social e política Organização Popular (OP), estivemos nas manifestações atuando a partir de duas entradas: uma, que configura a preocupação com a defesa dos manifestantes, quando engrossamos o grupo de advogados da Ordem dos Advogados do Brasil, na sua comissão de Direitos Humanos; outra, quando procuramos ombrear com a Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST) na coluna dos movimentos sociais. Esta última orientação tem como objetivo central reforçar a necessidade de imprimir ao ato uma fisionomia classista, uma vez que, por força do protagonismo estudantil, nem sempre ficava clara a presença dos movimentos sociais e de suas outras reivindicações.
Sobre as raízes do atual movimento reivindicatório mais visível desde junho/2013, vislumbramos diferenças em relação aos eventos dos “ocupa” e também da “marcha dos indignados”. Vai muito além também da demanda de “liberdade irrestrita” dos “Anônimos”. Parece-nos que a pauta econômica deu mais consistência ao processo. As questões do universo cidadão burguês aparecem sim, mas não o suficiente para apagar a centralidade do reajuste das passagens. A reação ao reajuste, até por ser de “apenas” 20 centavos, revelou também outra realidade, que os projetos assistencialistas do governo Dilma tentam escamotear, e que a massa empobrecida experimenta cotidianamente. Estamos nos referindo ao estigma social do Capitalismo, tanto mais cruel num país de economia periférica. Nesse caso, 20 centavos podem demarcar a fronteira entre a vida e a morte. Isso diz muito. Tão pouco determinando tudo, determinado a existência de um povo que já virou massa e de uma massa que, se organizada, pode mudar a História.
Essa conjuntura peculiar, ainda que familiar, pode alavancar algo verdadeiramente novo caso as manifestações sejam adensadas pelas organizações sociais não docilizadas pelas políticas de assistência. Isso se essas ingressarem no movimento com determinação e com a força das suas pautas, nas quais estão os elementos que de fato colocam o atual sistema em flagrante contradição. Caso os elementos de antagonismo se tornem explícitos através da persistência da ação organizada e tenaz dos movimentos, pode surgir algo realmente revolucionário disso tudo. Se a necessidade das favelas, ocupações sem-teto e desempregados assumir contornos de programa mínimo, certamente teremos algo diferente acontecendo e é para isso que lutamos.
Outro dado da conjuntura diz respeito ao lento mas importante deslocamento dos sindicatos no sentido de integrarem o movimento. Se essa disposição se traduzir em aliança tácita ou ainda em solidariedade ativa aos demais grupos oprimidos, pensamos que haverá algo de extremo valor ocorrendo.
É fundamental zelar pela organização do movimento, fazendo com que as ideologias sejam colocadas a serviço dos oprimidos e não o inverso. É o tempo do trabalho de base, da ação consequente junto aos movimentos sociais autônomos, sempre com eles, nunca na sua frente ou sem eles.
Analisamos que tal situação bem poderia se tronar um permanente movimento de reivindicação caso se juntassem a ele outras tantas categorias ainda pouco atuantes no processo.

Das favelas e movimentos populares de bairro
Se a partir de junho/2013 fica clara a revolta de diversos grupos, setores e categoriais sociais e profissionais em relação às injustiças, violências e arbitrariedades cometidas pelo poder vigente no Estado do Rio de Janeiro, claro está que esta foi potencializada também pelos altos custos sociais devido à preparação da cidade para sediar eventos desportivos internacionais. Uma situação sentida pelos trabalhadores, principalmente, nos subúrbios, periferias e favelas cariocas. A espoliação levada a efeito por parte da burocracia estatal, aliada a diversas parcelas do empresariado nacional e internacional, terminou por revelar uma situação vivida cotidianamente pela maioria destes moradores e que ganhou mais intensidade devido à conjuntura recente.
Assim, lutas históricas protagonizadas por moradores de favelas e de periferias, pelo fim da violência policial e contra as remoções e despejos, começaram a ganhar visibilidade no decorrer da conjuntura das manifestações que iniciaram a partir de junho. As ações repressivas praticadas pelos agentes da burocracia estatal, geradas em parte pela contrapartida cobrada pelos empresários do ramo imobiliário que haviam investido em algumas candidaturas políticas, podem explicar boa parte dessa violência nas favelas e ocupações do Rio.
As remoções e despejos ganharam um elevado grau de intensidade após a divulgação de que a cidade do Rio de Janeiro sediaria eventos desportivos e ambientais internacionais, como os Jogos Mundiais Militares (2011), a Rio +20 (2012), a Copa das Confederações (2013), a Copa do Mundo (2014) e os Jogos Olímpicos e Para-olímpicos (2016). Uma política de remoções confirmada no que possui de mais trágico, quando os movimentos sociais e moradores de favelas descobriram, em 2009, um projeto do governo municipal de Eduardo Paes para remover mais de 119 favelas até 2014. Por força dessa situação de alto risco, os trabalhos de organização para a luta de resistência junto às bases tiveram início. Uma iniciativa que, embora em algumas regiões da cidade se tenham, de fato, contabilizado a remoção completa de diversas favelas, como nas zonas norte e oeste, ainda assim, tem conseguido importantes vitórias.
Mobilizações contra remoções e despejos certamente ficarão para a história da luta popular, como a resistência ao despejo de Vila Taboinhas, em Vargem Grande e a dos moradores da ocupação urbana do Largo do Campinho, a primeira ocorrida em 2010 e a segunda em 2011. E ao longo de 2013, diversas atividades foram realizadas em favelas com intuito de sensibilizar e mobilizar moradores para a conjuntura explosiva que se intensificara. É neste contexto que se inserem as manifestações dos moradores do Horto, no bairro do Jardim Botânico, ocorrida no mês de junho/2013, e dos moradores da Vila Autódromo, em Jacarepaguá, realizadas no mês de julho. A culminância deste acúmulo organizativo dos moradores de favelas em luta foi o ato “Remove o Paes”, realizado em agosto na frente da residência oficial do prefeito.
Juntamente com a política estatal de remoções e despejos, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), as incursões do Batalhão de Operações Especiais da PM (BOPE) e as ações de grupos paramilitares compõem o quadro de políticas articuladas através do Estado que estão sendo combatidas por movimentos sociais de dentro das próprias favelas e periferias. Estes, ao realizarem debates e atividades dentro das comunidades, questionando e articulando esforços e ações para combater a atual política de segurança pública, que na prática aniquila e mata com igual violência a população das favelas, pretendem ainda denunciar aquilo que vem sendo aplaudido por segmentos da imprensa, classe média e empresarial como solução para os problemas, não do favelado, mas do morador dos prédios em áreas urbanas fora das comunidades.
Foi, sobretudo, através do movimento Favela Não se Cala que a luta pelo fim da PM e a desmilitarização dos territórios de favelas e periferias ganhou visibilidade a partir das manifestações de junho/2013. Este movimento também potencializou a luta contra as remoções e despejos, dando mais intensidade e vigor organizativo ao insistir nas ações de mobilização junto às bases realizadas desde 2009 pelos moradores das periferias e favelas da zona norte e oeste. Assim, o Favela Não se Cala já realizou debates em inúmeras favelas, como Babilônia, Chapéu Mangueira, Rocinha (dando apoio à causa do pedreiro favelado Amarildo, desaparecido após ser preso pela PM), Maré, Vila Autódromo, Estradinha, Labouriaux, Indiana, sempre denunciando a mentira do modelo UPP e relacionando-o com as políticas de remoção.
Neste sentido, dois movimentos sociais compostos por moradores de favelas e de periferias da cidade do Rio de Janeiro merecem destaque pela adoção de táticas que privilegiam a realização de atividades formativas, organizativas e de articulação entre militantes e a base dos próprios moradores de favelas e de periferias, contando, também, com suporte de alguns grupos de apoiadores. São eles: o Favela Não se Cala e o Fórum Popular de Apoio Mútuo. Tais movimentos, pautando-se em táticas de ação direta, ajuda mútua e solidariedade, com relativa e crescente autonomia, apontam para formas e táticas organizativas diferentes daquelas observados em décadas passadas no seio das favelas.
Conclusão geral
É bem verdade que em contraste com o mês de junho/2013 alguma coisa mudou. É fato que as volumosas manifestações de milhares de pessoas não cobrem mais ruas e praças do Rio de Janeiro. Não é menos verdadeiro que os atos não estão ganhando da mídia corporativa a mesma atenção. Todavia, ainda que com menos contingente numérico, em certas pautas aparecem demandas mais claras. Tanto mais nítidas quanto são mais evidentes os segmentos de classe que as sustentam e divulgam.
Ao que tudo indica, o movimento mais muda de forma que desaparece definitivamente. O que subsiste hoje tem amparo ou nas greves, ou nos movimentos de favela, de resistência cultural Hip-Hop e sem-teto. Entes sociais que já vinham se organizando, mas que, indubitavelmente, ganharam ânimo com os últimos acontecimentos. Se esses muitos atores coletivos eram já importantes motores de dinamismo para a luta social, tanto mais importantes são agora que, com o refluxo das manifestações de rua, o cotidiano exige deles continuidade das ações contra as injustiças sociais. Se estes movimentos não dependeram das jornadas de junho para nascer, por outra parte, estas contribuíram para que neles, pela comunhão de esforços, tenha se consolidado ainda mais a ideia da tão necessária organização.
E é para tal propósito que devem contribuir as organizações sociais autônomas do Rio de Janeiro.

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