OP em evento cultural na Baixada de Jacarepaguá

Posted on 18/05/2014

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No dia 23 de março, militantes da Organização Popular participaram de um evento de inestimável valor histórico e cultural no bairro do Camorim, na Baixada de Jacarepaguá (Rio de Janeiro, RJ): foi o “Evento de Resistência Cultural Quilombola da Comunidade do Alto Camorim”, realizada pelos próprios moradores da comunidade, que tiveram o apoio da Rede Carioca de Agricultura Urbana, Instituto PACS (Políticas Alternativas para o Cone Sul) e da administração da Igreja São Gonçalo de Amarante, construída em 1625 e que cedeu o espaço para a realização das atividades do evento. Outras organizações e entidades do movimento social de Jacarepaguá, que também colaboraram na organização do evento, estiveram presentes: a Associação Cultural do Camorim (ACUCA), o Jornal Abaixo Assinado de Jacarepaguá (JAAJ) e o Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá (IHBAJA). Acadêmicos, professores, moradores da região, visitantes da Baixada Fluminense, moradores de favelas de Jacarepaguá e da zona sul da cidade e militantes de diversos movimentos sociais também marcaram presença.

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No evento, o destaque foi a presença de representantes de outras experiências de resistência na região de Jacarepaguá: uma comissão de moradores da Vila Autódromo, que relataram suas experiências recentes de luta contra as tentativas de remoção por parte da Prefeitura; e outra comissão da Associação de Agricultores de Vargem Grande (Agrovargem), que relataram suas experiências com os movimentos de agroecologia da cidade através da Rede Carioca de Agricultura Urbana e outras experiências nem tão boas com a administração do Parque Estadual da Pedra Branca, devido às recentes controversas durante a elaboração do plano de manejo.

Outro momento de destaque foi a atividade oferecida por militantes do Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá: “Nas Trilhas da Resistência”, um bate-papo sobre a história de Jacarepaguá a partir das experiências de resistência protagonizadas por trabalhadores que viveram na região. Esta é uma das formas que os integrantes do IHBAJA buscam se aproximar dos movimentos sociais daquela região, abordando a história de Jacarepaguá a partir da perspectiva das lutas sociais e históricas que ocorreram e foram protagonizadas por moradores da região. Na atividade, foi abordada desde a luta dos quilombolas até a luta dos lavradores do Sertão Carioca, época em que a região de Jacarepaguá fazia parte da zona rural carioca. A troca de experiências entre os presentes durante a atividade foi animadora, com destaque para a comissão de moradores do morro Santa Marta, que apresentaram a experiência de trilha histórica que realizam onde moram, uma das primeiras favelas da zona sul.

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Desde 2004, há dez anos, moradores do Alto Camorim entraram com processo junto ao INCRA pleiteando o seu reconhecimento enquanto comunidade remanescente de quilombo. Além disso, foi pleiteado junto à Prefeitura um espaço para desenvolvimento de atividades para exercício da memória, de praticas e da identidade cultural quilombola junto aos moradores da região. Uma das instituições a frente deste processo é a Associação Cultural do Camorim (ACUCA), instituição local que participou da organização do evento.

Os moradores do Alto Camorim, que se reconhecem herdeiros da tradição quilombola em Jacarepaguá, possuem uma preocupação que é digna de registro: o avanço do mercado imobiliário na região. O bairro do Camorim é uma das regiões que mais cresce hoje em dia na cidade do Rio de Janeiro. Parte devido à quantidade de terras ainda sem edificações, o que evidencia na região a prática da reserva, valorização e especulação fundiária; e parte devido ao fato de que a região vem recebendo melhorias na infraestrutura devido aos Jogos Olímpicos de 2016, o que resulta na procura por moradias, seja por operários em busca de trabalho; seja por uma classe média em busca de morar num “bairro verde”, chamariz bastante utilizado pelas imobiliárias que atuam na região, como a RJZ Cyrella no empreendimento chamado Floris, que brota como erva daninha de dentro das florestas do Camorim.

Assim, enquanto o pleito colocado pela ACUCA e demais moradores do Alto Camorim junto à Prefeitura, para ter no local um espaço para desenvolvimento de atividades de resgate e exercício da cultura e memória quilombola vem se arrastando há anos, por outro lado, a Prefeitura parece ter mais disposição em estender as mãos para as empresas do ramo imobiliário. Pois os moradores do Alto Camorim observam, cada vez mais atentos, ao avanço dos projetos imobiliários sobre áreas densas de floresta, que com o aval da Prefeitura através do PEU das Vargens, propõe redefinições e aumento do gabarito para as construções de imóveis na região.

E é aí que reside a importância da atividade realizada no dia 23/03 na comunidade do Alto Camorim: a denúncia desta prática perversa de agentes do Estado em conluio com empresários da construção imobiliário. Além disso, os que reivindicam a herança local da cultura afrodescendente e quilombola em Jacarepaguá marcam através deste evento uma posição política nitidamente de resistência. Fica evidente, assim como no caso de Vila Autódromo, que o peso político que grupos empresarias possuem sobre a direção das políticas estatais é bem maior do que o peso político do conjunto dos trabalhadores e moradores de favelas.

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A OP-RJ reconhece a importância do evento e do resgate da herança histórica quilombola de comunidades como a do Alto Camorim, principalmente, na forma como se deu o evento: congregando uma série de entidades, organizações e movimentos sociais que com solidariedade fornecem apoio com respeito ao protagonismo daqueles que se organizam para resistir às ofensivas de grupos capitalistas que associados ao Estado praticam uma série injustiças nas periferias e favelas da cidade do Rio de Janeiro.

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