A vida em prestações

Posted on 06/01/2014

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(por: W. Bastos)

Um grande amigo me deu um ótimo presente: os contos completos do Lima Barreto, publicados num volumão de 711 páginas pela Editora Companhia das Letras em 2010. Falar das qualidades literárias do escritor pré-modernista Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) seria chover no molhado; o que gostaria de destacar aqui é o quanto um escrito literário, até despretensioso, pode suscitar digressões interessantes sobre os mais variados temas.

Lima tem, entre seus contos, verdadeiras obras-primas como, por exemplo, A Nova Califórnia, que talvez esteja entre as melhores narrativas curtas já escritas em Língua Portuguesa. Mas não é dessas preciosidades de que quero tratar. O texto que me fez pensar à beça na vida e na sociedade é um conto-piada, curtinho, intitulado O tal negócio de “ prestações”.

Na historinha, o personagem José de Andrade, trabalhador pobre, tinha o hábito de, lá uma vez ou outra, jogar no bicho. Um dia acertou uma centena. Com o dinheiro do prêmio, comprou um terreno em Inhaúma e mais algumas coisinhas domésticas; distribuiu o resto da grana (pouca coisa) entre a mulher (D. Conceição) e as quatro filhas (Vivi, Loló, Ceci e Lili). D. Conceição adquiriu, à prestação, uma saia de casimira; Vivi, dois pares de calçado (também a prazo); Loló comprou, a prestações, um relogiozinho-pulseira; Ceci adquiriu uma blusa, para pagar parcelado; da mesma maneira agiu Lili, que abriu um crediário ao comprar um adereço africano.

Ocorre que o mês se passou e não foi bom para a família. Como Vivi ficou doente, não pôde costurar, daí aumentou a despesa familiar com medicamentos, Loló também não pôde bordar porque precisou ficar cuidando da irmã, enfim, toda a economia familiar foi comprometida e ninguém conseguiu honrar as dívidas do mês seguinte.

Quando José de Andrade soube das cinco contas a serem pagas em razão dos crediários abertos, não teve outro jeito senão saldá-las à custa de muita dificuldade. Daí em diante, ao ver quem quer que seja vendendo algo a prestações, o modesto operário José passou a murmurar de si para si: “Não sei como a polícia deixa essa gente andar solta… Só se lembra de perseguir o ‘bicho’ que é coisa inocente”.

Fiquei pensando no enredo da historieta. Certamente ela reflete o tempo de Lima Barreto, em que as “modernidades” citadinas incluíam o consumismo como elemento considerado “chique”, mas que, na prática, tende a tornar a vida do trabalhador muito mais conturbada, fazendo-o ter que se virar pra conseguir pagar prestações de mercadorias nem sempre necessárias e que muitas vezes se deterioram logo.

Hoje neste nosso século 21, muita gente no Brasil não tem nem saneamento básico, mas ostenta uma gigantesca TV de plasma na minúscula sala de seu barraco. Outros têm filhos, matriculados em escolas públicas, que mal sabem ler (apesar de já estarem no meio do ensino fundamental), mas conseguem fazer viagens até para o exterior através de “milagrosos” crediários. E estes podem vir a comprometer fatias consideráveis do orçamento doméstico, transformando o dia a dia do pobre num inferno de privações e obrigações financeiras, levando a desavenças familiares, ansiedade, depressão e outras doenças.

O consumo te consome

A venda a prestações sempre pressupõe a cobrança de juros. Quando a propaganda diz “pague em tantas vezes sem juros”, está mentindo descaradamente, escondendo os juros já embutidos no preço da mercadoria. O objetivo é induzir a compra a prazo, para que a pessoa seja obrigada a arcar com multas em caso de atraso no pagamento. Aí o megacomerciante lucra mais ainda em cima do consumidor.

Hoje se vende até dinheiro a prestações. Isso mesmo: a pessoa compra o dinheiro e depois vai pagá-lo através de mensalidades, que somarão muito mais do que o valor adquirido. Chamam essa tramoia de “empréstimo”, e é sempre um péssimo negócio para o particular (que pede o dinheiro) e ótimo para a financeira (que empresta a quantia). Essa agiotagem está perfeitamente condizente com as leis da nossa sociedade capitalista brasileira, hipocritamente maquiada de tons vermelhos pela falsidade petista desde 2003.

Já penei muito na mão de bancos, e isso não é de hoje. Lembro duma época em que estava desempregado, vivendo de bicos e da ajuda de familiares. Estava usando todo o crédito que tinha no chamado “cheque especial”, mas pagava direitinho os juros que o banco cobrava pelo serviço. Daí, dum dia para o outro, sem nenhum aviso prévio, meu crédito foi integralmente cortado. Fiquei literalmente no vermelho, como inadimplente, por simples vontade do banco. Chamado à agencia, fui coagido a assinar uma nota promissória em branco, como garantia de que eu iria pagar as prestações da dívida. Argumentei que a nota não poderia estar em branco, pois ali poderia ser posto qualquer valor e isso seria ilegal. A resposta dada a mim foi bastante interessante: “Olha, todo banco faz isso. E o nosso banco não iria confiar no seu pagamento mensal ‘só pelos seus lindos olhos’”.

Banco batendo carteiraFelizmente consegui o dinheiro até antes do término das prestações. Quando fui quitar a dívida, o funcionário (era outro) não me entregou prontamente a nota promissória. Foi dito para mim que ela seria incinerada. Tive que pedi-la e voltar noutro momento para pegá-la. Pensei até em dizer que não era obrigado a acreditar que o banco destruiria a nota só “por seus lindos olhos”. Mas não adiantaria nada, o funcionário não era o mesmo, não entenderia minha frase e, além disso, minha bronca não é com os bancários, mas com os banqueiros – que, aliás, nunca mostram a cara.

Banqueiro na mamata

E assim fica o povo: com sua resposta desaforada aos banqueiros entalada na garganta. Como responder às financeiras que elas são agiotas criminosas, estelionatárias, vendedoras da ilusão de que o dinheiro oferecido é uma “saída do sufoco” financeiro? Como gritar tudo isso na cara dos banqueiros e dos “cobradores de prestações” em geral?

Não há muita diferença entre as prestações dum empréstimo, ou duma compra de mercadoria. O preço que se é obrigado a pagar é sempre mais do que a pessoa levou, e o capitalista, em ambos os casos, torce pra que a pessoa não consiga pagar em dia, para que incidam mais juros e o trabalhador se ferre de vez.

O grito do trabalhador contra esses especuladores, entalado na garganta, às vezes vem à tona num ato de revolta como uma pedrada numa vidraça bancária. Mas aí vem a polícia com sua eficiência em defender o patrimônio dos milionários; vem o judiciário pronto a condenar o “perigoso” apedrejador; vem a mídia grande, tachando-o de baderneiro, vândalo, arruaceiro, desordeiro…

Toda essa turba de falsos moralistas (polícia, judiciário e imprensa burguesa) vai sempre aparecer para reprimir pequenos “infratores” (como os reles apontadores de jogo do bicho), enquanto os verdadeiros criminosos (banqueiros e empresários) fazem das suas por aí.

Não nos deixemos seduzir pela propaganda em prol do consumismo e dos empréstimos destruidores de nossa economia familiar. A felicidade não reside nas bugigangas oferecidas e propagandeadas no mundo burguês. Ela está na beleza dum pôr do sol, no passeio numa praça, no abraço dum familiar, na amizade, solidariedade humana e na luta por uma sociedade mais justa.

Concluído isso, o que nos resta fazer? Ficar murmurando contra as “prestações” que inventam para nos jogar na roda viva das dívidas? Que essas queixas tímidas, murmúrios isolados, se somem a outras vozes! E que construamos juntos, desde já, um mundo livre dos grilhões do mercado e das artimanhas do capital, um mundo em que a vida seja vivida integralmente, e não a prestações!

(W. Bastos é militante da OP)

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