Sobreviventes da tragédia do Morro do Bumba continuam na luta por moradia digna

Posted on 03/12/2013

0



No dia 10/11/13, por sinal um bonito dia de domingo, foi realizada uma visita aos ex-moradores do Morro do Bumba (Niterói/RJ). Atualmente os moradores sobreviventes da grande tragédia (deslizamento de terra) que ocorreu em 2010, que segundo os jornais da época deixou 267 mortos sendo que somente 48 corpos foram encontrados, ainda estão abrigados no terceiro batalhão de infantaria do exército, localizado no bairro Venda da Cruz.

A negligência do governo do estado e da prefeitura de Niterói são gritantes. Pois quem vai ao local pode ver nitidamente as condições precárias em que se encontram os moradores que já sofreram muito com a perda de entes queridos e de suas antigas moradias. Em sua grande maioria são negros e de origem simples, muitos oriundos duma ocupação no bairro de Icaraí que foi desalojada anos atrás. Na esperança de uma vida melhor, foram relocados no Morro do Bumba, um lixão desativado e abandonado por décadas. Essa e outras atrocidades que acometem a nossa população já são práticas de muitos governos que, independente de suas legendas partidárias, não estão nem um pouco interessados em resolver as sérias questões de coleta e descarte do lixo em nosso país.  Percebemos que não existe uma política concreta do governo que dê conta da grande quantidade de lixo orgânico, inorgânico e muita vezes até de lixo contaminado e tóxico que a cada dia se acumula nas extremidades e periferias das grandes metrópoles. Ações governamentais irresponsáveis têm impacto profundo na vida da população e em nosso meio ambiente a curto e a longo prazo.

ImagemFalando em prazo, os moradores do abrigo muito mal improvisado – que só fica mais agradável pela enorme área livre, árvores numerosas, grande quantidade de crianças e de animais de estimação que brincam livremente entre os alojamentos militares – estão de olho numa data limite que se aproxima. É que esses moradores têm até o dia 20 de dezembro deste ano, 2013, para alugarem um imóvel e se mudarem do batalhão. O imóvel, segundo eles, será bancado através do aluguel social, pago pelo governo, que será em torno de R$ 1.000,00. O Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Niterói está em contato direto com os moradores para facilitar o andamento dos processos. Mas os moradores precisam já estar com o local de locação definido para então começar a receber essa ajuda, ou seja, eles vão ter que correr atrás para arranjar um local pra alugar até que as novas moradias estejam prontas: um serviço que seria obrigação da prefeitura, governo do estado e até da União, de acordo com a nossa constituição federal de 1988. A promessa da prefeitura – que desde a tragédia já mudou de mãos, saindo do PDT (Jorge Roberto da Silveira) e indo para o petista Rodrigo Neves (o qual inclusive estudou ciências humanas na Universidade Federal Fluminense) – é que no máximo até o mês de junho de 2014 as novas moradias estarão prontas. Sabemos que isso pode ser mais uma promessa vazia, uma vez que alguns dos blocos de apartamentos precisaram ser derrubados e reconstruídos devido ao surgimento de rachaduras em suas estruturas durante a fase de construção, impactando ainda mais a data de entrega. As novas moradias estão localizadas nos arredores do Morro do Castro, que fica no bairro de Tenente Jardim em Niterói no sentido de Riodades.

As condições de vida no 3º BI são desumanas, podemos ver pelos banheiros que são coletivos e que não foram sequer adaptados para atender os desabrigados. Existe apenas um único chuveiro elétrico que deve ter sido instalado por algum dos moradores.

IMG_20131110_105516

Os próprios moradores se organizam e fazem revezamento na portaria. Ao entrar você precisa se identificar e dizer quem está visitando. Fui muito bem atendido pelo porteiro da manhã de domingo, que indicou onde deveria ir até encontrar a residência dum morador que conheço. Ao encontrá-lo, ele me contou sobre a atual situação em que se encontram os moradores e acabei conhecendo sua esposa, mãe, enteados, filhos (os quais brincavam de bicicleta pela enorme área livre do batalhão) e um dos seus animais de estimação sobrevivente da tragédia.

“V”, o meu anfitrião, é um trabalhador que só tem uma folga na semana, como muitos outros atualmente, e viveu por muitos anos sendo jogado de um lado para outro pelo simples fato de ser pobre, negro e não ter uma moradia digna. Apesar de tudo, desde o momento que o conheci, ele sempre me tratou com muita educação. Além disso, pude ver no trato que tem com seus filhos que, apesar da dureza da vida, seu coração não endureceu e o amor que ele tem por eles transparece em seu carinho e atenção com as crianças. Isso é bem nítido. Outra coisa bem nítida que presenciei é que, ao contrário do que muitos pensam,  há jovens ajudando nas tarefas de levar aguá potável em baldes para os abrigos: um trabalho pesado e chato de ser feito. A água é algo essencial para nossa sobrevivência como seres humanos. Não é à toa que algumas crianças pegaram hepatite por ingerir água contaminada dos alojamentos. Foi necessário a realização de uma limpeza nos armazenamentos de água do batalhão. A  prefeitura acabou fazendo isso, mas…  somente depois do ocorrido com as crianças.

O batalhão é um lugar de edificações antigas que serviu para as Forças Armadas por muitos anos e que agora abriga pessoa simples que lutam por uma moradia. Não uma moradia de luxo, carros de luxo ou coisas do gênero, e sim por um simples lugar para morar, um lugar que eles possam realmente chamar de lar.

Outras fotos dos banheiros coletivos em estado bastante precário:

IMG_20131110_105857

IMG_20131110_105839

IMG_20131110_105542

Quadra de esportes Ginásio Henrique Lajes, dentro do batalhão, utilizada pelos moradores para pratica de futebol e que teve uma parte do piso da sua quadra consertada pelos próprios moradores:

IMG_20131110_110452

Visão geral dos alojamentos utilizados como abrigo:

IMG_20131110_110435

(Texto escrito por militante da Organização Popular – OP)

Anúncios