Sobre o antifascismo e a luta social

Posted on 02/07/2013

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(por: Katia Motta e Caralâmpio)

Breve histórico

Na peça teatral, “A Resistível Ascensão de Arturo Ui”, Bertolt Brecht denuncia não apenas a relação entre crime e política como ainda, de forma alegórica, fala da trajetória de Adolf Hitler e alerta para a necessidade da permanente vigilância em relação aos regimes autoritários. Lá pelo final da ultima cena, uma frase interrompe o espetáculo e corta a plateia como lâmina afiada: “O ventre da besta continua fértil”. Um vaticínio, um presságio, mais que tudo uma lúcida reflexão sobre a débil racionalidade humana.

 

Os regimes conceitualmente identificados como fascistas, nas suas tipificações de Nazismo, Falangismo, Integralismo, etc. o são por apresentarem núcleos comuns de onde é possível destacar o autoritarismo político, o nacionalismo exacerbado, a intolerância generalizada e a supervalorização do Estado. Todavia, existem especificidades entre as experiências de fascismo, sendo o próprio termo geral, também ele, o identificador de um modelo autoritário que ascendeu na Itália, em 1922.

antifascista

Como estratégia de combate ao fascismo, neste caso tratado como nomenclatura válida para todos os fenômenos surgidos na mesma época (entre os anos de 1920 e 1940), ainda que em países diferentes, os anarquistas engrossaram e/ou propuseram frentes antifascistas. Estas organizações reuniam não apenas militantes organicamente libertários; elas eram, no mais das vezes, híbridas ideologicamente. Em alguns casos, em não poucos, era possível encontrar nestas frentes, interagindo para a consecução do mesmo propósito, liberais, comunistas, socialistas, além dos próprios anarquistas.

No caso brasileiro a Aliança Nacional Libertadora (ANL), fundada em 1935, cumpriu esse papel ao aglutinar as forças de oposição ao governo Getúlio Vargas. Um governo que, segundo os membros da ANL, já por esse tempo, aproximava-se perigosamente do ideário fascista. Mas não era apenas esse o motivo; a frente antifascista pretendia barrar ainda o avanço da Ação Integralista Brasileira (AIB), entidade fundada em 1932, na qual pontificavam os nacionalistas de tendência direitista. Uma intenção que já se anunciara em 1934, na Batalha da Praça da Sé, quando comunistas, trotskistas, socialistas, tenentes de esquerda e anarquistas entraram em confronto direto com os integralistas ao dissolverem violentamente um evento público agendado por estes.

ANL

Pode-se afirmar que a ANL, cujo presidente era um socialista moderado, Hercolino Cascardo, não era propriamente uma entidade revolucionária. Na realidade ela cumpria o papel de reunir em seu interior os elementos mais vivamente contrários ao Fascismo e ao projeto do governo. Mas ainda assim, ainda que com uma pauta geral reformista, os anarquistas entendiam que era fundamental participar da frente deixando bastante claro o aporte central dessa aliança. Era fundamental tornar evidente a forma e a relevância do ingresso na entidade. Para tanto, a filiação dos libertários deu-se quase exclusivamente pela Federação Operária de São Paulo. Uma opção que não podia deixar mais clara a premissa classista, o ponto de inflexão, o papel a ser desempenhado pelos anarquistas dentro da ANL.

Nos dias que correm

As últimas manifestações no Rio de Janeiro, principalmente após o dia 13 de junho, têm levado às ruas centenas de milhares de pessoas. Mesmo depois de os governos terem restaurado o preço das passagens (19 de junho), bandeira mais imediata, ainda assim a população não abandonou os atos. Muito diversamente, a manifestação do dia 20 de junho ganhou proporções históricas.

Foi também nesse ato histórico que um incidente confirmou a hipótese de estarem as forças de extrema direita organizadas para atacar os partidos políticos de esquerda, aproveitando-se de uma profunda rejeição à politica tradicional bastante perceptível nas passeatas anteriores. Misturados aos policiais, em grupos, neonazistas e nacionalistas extremistas atacaram covardemente militantes do PSTU e PCB, contando para isso com a complacência dos “agentes da ordem”. Reagindo a isso, os partidos agredidos, em particular o PSTU, organizaram uma atividade no SINDIPETRO-RJ, no dia 21 de junho com vistas a tratar de, entre outras coisas, uma ação unificada contra o Fascismo.

A iniciativa, tanto válida quanto necessária, entretanto, não elencou entre suas diversas razões outros tantos episódios de agressão perpetrados por grupos extremistas. Agressões cotidianas aos homossexuais, moradores de rua, índios e negros e outras tantas, como aos anarquistas e anarcopunks, estas com maior longevidade histórica. Aliás, os mesmos grupos de extrema direita já haviam ensaiado atitude semelhante no dia 17 de junho, durante o episódio rotulado pela mídia burguesa de “Batalha da ALERJ”. Uma performance cujo alvo prioritário foi o conjunto de jovens manifestantes anarquistas.

Ainda que com balanço bastante parcial das vitimas do “neofascismo”, uma vez que fica faltando um criterioso relato dos inúmeros casos anteriores, a utilidade de uma frente para combate do extremismo de direita é evidente. Certamente que uma resposta organizada precisa ser dada e com a brevidade que o assunto exige.

Para tanto é preciso que os anarquistas ponderem menos sobre se vão ou não participar de tal iniciativa, mas considerem, sobretudo, como irão se localizar no conjunto de forças no contexto da iniciativa. Dentro desse quadro faz-se necessário insistir que qualquer frente antifascista deve ter um lastro classista evidente. Mais evidente que as ideologias que a compõem. O classismo une as forças das diversas correntes sem deixar margem para a infiltração direitista. É o mais eficiente antídoto contra o aparelhamento por um exclusivo político. Unifica pela necessidade, pela urgência dos estômagos vazios, aproxima e desenha um perfil para a massa, unifica-a e a dignifica na condição de povo. Sem o protagonismo da classe qualquer esforço torna-se iniciativa de preferência política, de particularismos, de projeto de um grupo apenas ou da reunião de uns poucos.

Uma frente antifascista precisa apresentar, antes de tudo, sua credencial social. Tem que autoafirmar o povo e não substitui-lo por uma legenda. Em suma, uma frente antifascista tem que reunir os movimentos sociais com uma pauta revolucionária e anticapitalista. Nos meios já devem aparecer os fins. E nesse caso os anarquistas podem muito serenamente reivindicar o posto já antes ocupado pelos sindicalistas revolucionários.

Isso é ainda insuficiente, é preciso avançar mais…

Essa conjuntura peculiar pode alavancar algo verdadeiramente novo, caso as atuais manifestações sejam adensadas pelas organizações sociais não docilizadas pelas políticas de assistência. Se essas ingressarem no movimento com determinação e com a força das suas pautas, nas quais estão os elementos que, de fato, colocam o atual sistema em flagrante contradição. Caso os elementos de antagonismo tornem-se explícitos através da persistência da ação organizada e tenaz dos movimentos. E, finalmente, se as necessidades das favelas, ocupações sem-teto e desempregados assumirem contornos de programa mínimo, certamente teremos algo diferente acontecendo.

Um outro dado da conjuntura imediata diz respeito ao lento, mas importante, deslocamento dos sindicatos no sentido de integrarem o movimento. Se essa disposição se traduzir em aliança tácita ou ainda em solidariedade ativa aos demais grupos oprimidos, teremos algo de extremo valor acontecendo. A estrutura dos sindicatos, bem como a experiência acumulada com as lutas, certamente podem definir a favor do movimento as circunstâncias a partir das quais vamos construir a luta nos próximos meses.

Em qualquer das hipóteses é fundamental que os anarquistas permaneçam zelando pela organização do movimento, fazendo com que a ideologia seja colocada a serviço dos oprimidos e não o inverso. É o tempo da minoria ativa, do trabalho de base, da ação consequente junto aos movimentos sociais autônomos, sempre com eles, nunca na sua frente ou sem eles.

Na Luta e pela Luta!!!

(Caralâmpio é militante da OP: Organização Popular)

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