Se há Paes, não há paz

Posted on 01/07/2013

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(por: W. Bastos, militante da Organização Popular – OP)

No domingo 26 de maio de 2013, o músico e escritor Bernardo Botkay, conhecido como Botika, estava no Horto, zona sul do Rio, com a namorada, a produtora cultural Ana Maria Bonjour, quando encontrou – por acaso – com um amigo. Ao cumprimentá-lo, Botika se admirou de ver que o conhecido estava acompanhado de ninguém menos que o prefeito Eduardo Paes. Então perguntou se era ele mesmo. A resposta do debochado político foi irônica: “não, é o César Maia”.

Segundo noticiado por vários veículos de comunicação, Botika teve raiva da atitude zombeteira e disse que Eduardo Paes era um bosta, em seguida o mandou à merda. Ana Maria, por sua vez, questionou o prefeito sobre a política cultural e sobre as arbitrárias remoções de comunidades pobres. Como Eduardo Paes só respondeu com ironias, Botika pediu à namorada que fossem embora.

Foi nesse momento que o “ilustre” prefeito da cidade do Rio de Janeiro Eduardo Paes deu dois socos em Bernardo Botkay. Seguranças de Paes intervieram e Ana Bonjour caiu no chão, machucando os joelhos.

O caso foi registrado na 15ª DP (Gávea), porém o casal logo resolveu retirar a queixa. Botika explicou, numa carta à imprensa, que o assunto não merece ser criminalizado, mas debatido publicamente, de forma política, portanto.

Realmente não é criminalizando os conflitos que resolveremos as graves questões que assolam nossa sociedade. Infelizmente os governos insistem em tratar questões sociais como caso de polícia e (apoiados pela imprensa reacionária) tacham de “vândalos” todos os que – cansados dos cinismos, deboches e afrontas dos políticos, banqueiros e empresários – respondem energicamente, da maneira que podem, investindo contra os símbolos da opressão erigidos em nossa cidade.

A zombaria do prefeito Eduardo Paes não se resume aos deboches que ele direciona aos eleitores que encontra, por acaso, nas ruas. Vejamos, por exemplo, a recente “parceria” (ou patifaria) que a prefeitura fez com a fábrica de brinquedos Estrela.

No jogo de tabuleiro “Banco Imobiliário”, como já é amplamente sabido, ganha a brincadeira o participante que conseguir acumular mais dinheiro com a compra de lotes de terra e companhias de serviços públicos. Neste 2013, a arquimilionária Estrela resolveu lançar a edição especial “Banco Imobiliário Cidade Olímpica”. A prefeitura, eterna serviçal dos ricaços, cedeu gratuitamente os direitos da marca “Cidade Olímpica”. O prefeito Eduardo Paes ainda gastou quase 1 milhão de reais do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB), comprando 20 mil unidades do jogo para “uso pedagógico” nas escolas públicas municipais.

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Mas a adoção do jogo nas escolas representa algo ainda mais perverso que a simples autopromoção de Paes à custa de dinheiro público.

Na nova e alienante brincadeira do “Banco Imobiliário” pode-se comprar o BRT, o Maracanã, Clínicas de família, Rio Filme e até o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. O objetivo ideológico do brinquedo é claro: promover a naturalização da mercantilização da cidade, dos processos de privatização de patrimônios públicos e direitos fundamentais – é mostrado como normal que tudo no município esteja à venda. Paes e sua corja buscam, às custas de verba pública, fazer uma lavagem cerebral em nossas crianças e adolescentes, criando uma mentalidade privatista na nova geração tão carente de cultura.

Além de promover o culto à ação de especuladores fundiários, o jogo esconde as consequências sociais negativas resultantes dessa ação, como as remoções arbitrárias de comunidades pobres, a degradação do meio ecológico e a diminuição (ou sucateamento) dos serviços públicos.

É ou não revoltante? Frente a tantos deboches e afrontas da prefeitura (em conluio com empresários e especuladores) era mesmo de se esperar que muitos cariocas atacassem prédios que simbolizam a opressão econômica e política, tais como bancos e palácios governamentais. Da mesma forma, já era de se esperar que um eleitor, ao encontrar com Eduardo Paes na rua, demonstrasse hostilidade em relação a ele e a tudo que representa. Então por que será que os políticos têm se mostrado tão admirados com a revolta popular (intensificada no Brasil em junho de 2013) e, só agora, estarem declarando ter começado a ouvir o povo? Será se governantes e empresários acharam que poderiam sempre debochar do povo na mais perfeita paz?

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FONTES:
Jornal Abaixo-Assinado de Jacarepaguá nº 55, março/2013;

Brasil de Fato Edição RJ, nº 6, de 6 a 12 de junho do 2013.

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