E o povo se levanta: os protestos no Rio de Janeiro

Posted on 25/06/2013

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(por: frente sindical)

As manifestações aqui no Rio de Janeiro (RJ), assim como no resto do Brasil, vêm ganhando força desde meados de junho/2013. Já no dia 13, cerca de 10 mil pessoas estavam nas ruas do centro da cidade pedindo a redução das tarifas dos ônibus. O aumento que foi de “apenas” 20 centavos de real acabou chamando a atenção da população para outros tantos problemas. As primeiras manifestações caracterizaram-se pela presença quase exclusiva de estudantes e setores marginalizados da sociedade como os sem-teto, por exemplo.

No dia 17 de junho, após muitas convocações pelas redes sociais e mensagens interpessoais, o ato marcado para a Candelária, centro do Rio, às 17 horas, ganhou volume inesperado. Os especialistas afirmam que lá estiveram mais de 100 mil pessoas. Dessa vez o público era mais diverso, além dos estudantes e sem-teto, o ato contou com a presença explícita de partidos políticos, que até o dia 13 haviam participado timidamente, além de outros setores da sociedade civil com pautas reivindicativas das mais diversas. Os sindicatos, se lá estiveram, não levaram suas bandeiras.

Todavia nesse ato era possível constatar que havia crescido também a participação de setores da direita. Grupos neonazistas infiltravam-se nas colunas que percorriam a av. Rio Branco misturando-se à massa de manifestantes em simbiose com os agentes provocadores da polícia. Em certos momentos, esses extremistas de direita ensaiavam confrontos com os blocos de partidos e grupos anarquistas das mais distintas orientações.

Os partidos de esquerda (PSOL, PSTU, PCB, PCR, PSB e até o PcdoB, que é base de apoio do governo federal) por sua vez, bastante hostilizados pela generalidade dos manifestantes, acabaram por dividir a passeata em dois blocos. Fizeram isso principalmente porque não conseguiram tomar a dianteira da volumosa coluna. Partiram a manifestação em dois segmentos em flagrante descumprimento da defesa que formalmente fazem da “unidade” em momentos como esse. Um dado da realidade que, segundo entendemos, pesará contra eles em um balanço mais lúcido dos eventos pelos quais estamos passando.

A decisão dos partidos acabou, como em outras oportunidades, gerando uma alteração do percurso original decidido previamente. Por força do exposto, uma parte considerável da passeata dirigiu-se à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), local no qual o conflito entre manifestantes e a repressão policial se tornaria explícito.

Na rua 1º de Março, endereço da Alerj, uma enorme quantidade de manifestantes, talvez 1/3 de toda a massa, iniciou um violento protesto contra aquele que parecia ser o símbolo máximo da injustiça social. A Assembleia que reúne deputados estaduais de quase todos os partidos legais no país passou a ser o foco da indignação coletiva. Logo, uma nada inédita parceria involuntária fez interagir, na ação radical, manifestantes e policiais infiltrados, os chamados P2, o que resultou no lançamento de coquetéis molotov contra o prédio da Alerj, bem como no incêndio de um carro que se encontrava na lateral do referido prédio.

Ainda que parte dessa ação contundente tenha como origem a intenção policial de provocar os manifestantes e seu consequente resultado venha na forma de ato radical, os ativistas, e nesse aspecto destacaram-se anarcopunks e insurrecionalistas, lograram uma clara vitória ao sitiar a Alerj, empurrando para o seu interior um grupo significativo de policiais assustados, mesmo apavorados. Uma vitória que, a despeito das prisões e ferimentos de manifestantes (um inclusive alvejado por arma de fogo), marcou de forma importante o ato. Deu a este tal magnitude, que a mídia burguesa teve que – através de um invejável contorcionismo – explicar os fatos mesclando críticas a elogios. O jornal O Globo, por exemplo, reservou todo o seu primeiro caderno do dia seguinte ao evento dividindo o ato, assim como os partidos políticos, em dois blocos: a passeata “ordeira e cidadã” e a “Batalha da Alerj”, obviamente cobrindo de elogios o primeiro e de infâmia o segundo.

Para além do que aqui foi relatado, pode-se dizer que o ato colheu no dia 19 de junho uma primeira e importante vitória. O governo do Rio de Janeiro, Município e Estado, decretou a redução da tarifa, fez com que a passagem retornasse ao valor anterior de 2,75 reais. A redução alcançou também os bilhetes de metrô, trens e barcas. Uma vitória que, por si só, já justificaria o fim das manifestações, uma vez que o decreto governamental atende ao principal reclamo dos manifestantes. Entretanto, o ato marcado para o dia 20 de junho, quando acontece também uma partida no estádio do Maracanã, prevista no calendário da Copa das Confederações, não foi desmarcado por ninguém e a própria mídia burguesa já estima que lá estarão mais de 1 milhão de pessoas (1). Um sintoma que nos permite supor que o movimento pode avançar para uma pauta social mais ambiciosa.

No caso da tendência social e política Organização Popular (OP), estivemos nas manifestações atuando a partir de duas entradas: uma, que configura a preocupação com a defesa dos manifestantes, quando engrossamos o grupo de advogados da Ordem dos Advogados do Brasil, na sua comissão de Direitos Humanos; outra, quando procuramos ombrear com a Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST) na coluna dos movimentos sociais. Esta última orientação tem como objetivo central reforçar a necessidade de imprimir ao ato uma fisionomia classista, uma vez que, por força do protagonismo estudantil, nem sempre ficava clara a presença dos movimentos sociais e de suas outras reivindicações.

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Sobre as raízes do atual movimento, acreditamos que seja diferente dos recentes eventos dos “ocupa” e também da “marcha dos indignados”. Vai muito além também da demanda de “liberdade irrestrita” dos “Anônimos”. Parece-nos que a pauta econômica deu mais consistência ao processo atual. As questões do universo cidadão burguês aparecem sim, mas não o suficiente para apagar a centralidade do reajuste das passagens. A reação ao reajuste, até por ser de “apenas” 20 centavos, revelou também uma outra realidade, que os projetos assistencialistas do governo Dilma tentam escamotar, e que a massa empobrecida experimenta cotidianamente. Estamos nos referindo ao estigma social do Capitalismo, tanto mais cruel em um país de economia periférica. Nesse caso, 20 centavos podem demarcar a fronteira entre a vida e a morte. Isso diz muito. Tão pouco determinando tudo, determinado a existência de um povo que já virou massa e de uma massa que, se organizada, pode mudar a História.

Essa conjuntura peculiar, ainda que familiar, pode alavancar algo verdadeiramente novo caso as manifestações sejam adensadas pelas organizações sociais não docilizadas pelas políticas de assistência. Isso se essas ingressarem no movimento com determinação e com a força das suas pautas, nas quais estão os elementos que de fato colocam o atual sistema em flagrante contradição. Caso os elementos de antagonismo se tornem explícitos através da persistência da ação organizada e tenaz dos movimentos, pode surgir algo realmente revolucionário disso tudo. Se a necessidade das favelas, ocupações sem-teto e desempregados assumir contornos de programa mínimo, certamente teremos algo diferente acontecendo e é para isso que lutamos.

Um outro dado da conjuntura imediata, de ontem para hoje, diz respeito ao lento mas importante deslocamento dos sindicatos no sentido de integrarem o movimento. Se essa disposição se traduzir em aliança tácita ou ainda em solidariedade ativa aos demais grupos oprimidos, pensamos que haverá algo de extremo valor ocorrendo. A estrutura dos sindicatos, bem como a experiência acumulada com as lutas, certamente podem definir a favor do movimento as circunstâncias a partir das quais vamos construir a luta nos próximos meses.

Em qualquer das hipóteses é fundamental que os libertários estejam zelando pela organização do movimento, fazendo com que as ideologias sejam colocadas a serviço dos oprimidos e não o inverso. É o tempo do trabalho de base, da ação consequente junto aos movimentos sociais autônomos, sempre com eles, nunca na sua frente ou sem eles. É também o momento de rechaçar nacionalismos e ideários burgueses e autoritários que buscam se infiltrar no movimento pela influência dos veículos de comunicação massificantes. O desafio é grande, mas a união e a força de nosso povo já mostraram – ao longo duma extensa história de lutas – que podem ser ainda maiores.

Avante os que lutam! Autonomia! Apoio Mútuo! Ação direta!

(1) NOTA: O presente texto foi escrito em 19/06 e a previsão do número de pessoas não ficou longe da realidade que veio a se apresentar no dia seguinte. 

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