Relato do ato da Vila Autódromo

Posted on 03/07/2012

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No dia 20 de junho, na comunidade Vila Autódromo, na Baixada de Jacarepaguá, vários setores do movimento social se reuniram para prestar solidariedade aos moradores da ocupação que, nos últimos 20 anos, vem sofrendo assédio não apenas das autoridades governamentais como também das empresas de construção civil que já dividiram o espaço urbano do Município do Rio de Janeiro. O caso da Vila Autódromo é emblemático, uma vez que se apresenta como um espaço ocupado há mais de 40 anos por um conjunto de famílias que hoje está na sua terceira geração e que, por força dessa permanência, encontra-se com os laços apertados ao local. Muitos dependem sobremaneira da permanência para a manutenção das suas relações de trabalho e vínculos pessoais cultivados no bairro.

Assim, a questão encontra-se muito além do simples problema de moradia, mas antes, e talvez principalmente, de como os trabalhadores pobres, moradores de favelas e ocupações, se relacionam com o entorno da sua comunidade. Não apenas por força do exercício constitucional do direito de morar, mas também pelas formas livremente constituídas e articuladas que dão identidade aos grupos de moradores.

Diante do fato, organizações como MST, Via Campesina, Frente Internacionalista dos Sem-Teto, Central de Movimentos Populares, Movimento Nacional de Luta Pela Moradia, grupos indígenas e quilombolas, Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas, Cúpula dos Povos, Organização Popular, Sindscope e o Conselho Popular – RJ manifestaram seu apoio à causa dos ocupantes em um evento que reuniu mais de mil pessoas. Um carro de som serviu de plataforma para intervenções pontuadas pela emoção e protestos de solidariedade, no intuito de aproximar as diversas lutas em curso no Brasil, e não só.

Todavia, o fim do ato ficaria marcado pela cisão entre a base de parte dos movimentos presentes e as suas respectivas direções. Ignorando seus dirigentes, a massa decidiu pela radicalização do processo. Os índios, que, aliás, se cobriram de glória nesse momento, encabeçaram a coluna que se dirigiu para o ponto da estrada onde a polícia militar e frações de paraquedistas do Exército faziam a segurança das autoridades internacionais da Rio +20. Separados apenas por alambrados de ferro, manifestantes e a tropa experimentaram momentos de tensão. Uma tensão tanto mais emocionante por força da performance dos índios que, ao formarem um grande círculo humano, tendo ao centro o veterano cacique caiapó Raony, impuseram aos “inimigos do povo” uma desconcertante derrota moral.

Dizemos isso, uma vez que os índios, a despeito de encontrarem-se armados apenas com suas bordunas e tacapes, pareciam ignorar a força imensamente superior dos soldados. Foram até a fronteira da via que leva ao Rio Centro e simbolicamente desdenharam dos policiais fortemente armados, de seus carros blindados e armas de gás, aparentemente prontas para a ação. Curiosamente a massa, já completamente tomada pela iniciativa dos povos originários, subordinada mesmo a ela, manteve-se fiel à orientação destes. Após um curto episódio de sincopados gritos de palavras de ordem, os manifestantes afastaram-se da barreira policial, muito em função da presença de uma “autoridade” governamental que surgiu com a manifesta intenção de “acalmar os ânimos”.

Findo o ato, dispersas as centenas de manifestantes, a Vila retomou o seu cotidiano de comunidade desassistida pelo poder público. Entretanto, suas vielas, suas casas, seus moradores nunca mais serão os mesmos. Por possuir um histórico de luta e simbolismo da resistência dos trabalhadores, a Vila Autódromo teve a capacidade de agregar diversos setores do movimento social, contribuindo para a construção do Ato com expressividade, pois mesmo com a cisão interna de alguns movimentos, este dia ficou marcado como uma forma de resistência popular. A presença de quilombolas, índios e trabalhadores rurais sem-terra deixou o rastro das lutas centenárias do povo brasileiro. A Vila Autódromo é o Quilombo Urbano da Pedra do Sal, é a aldeia Maraca-nã, é a ocupação Luiza Mahin, é, enfim, toda a população trabalhadora sob a ameaça constante do poderio econômico e da opressão Estatal.

A. Mercês (Moradora de Jacarepaguá – apoia o Conselho Popular -RJ e o Movimento de ocupações urbanas).

A. Samis (diretor do SINDSCOPE e militante da Organização Popular e MTD Pela Base)

K. Motta (comando de greve do SINDSCOPE)

R. Dória (militante do Conselho Popular-RJ e morador de Jacarepaguá)

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