Pequeno Relato de quem viveu uma privatização

Posted on 11/01/2012

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Por W. Bastos militante da Frente Sindical da Organização Popular

Fonte: http://expressaoliberta.blogspot.com/2012/01/pequeno-relato-de-quem-viveu-uma.html

Segunda metade da década de 1990. Eu era concursado e possuía um cargo público efetivo na esfera federal do Poder Executivo. Mas, para mim, isso pouco me ajudava. É que o salário oferecido era muito baixo, não dando nem pra pagar um aluguel duma quitinete, somado ao IPTU, mais outras contas e alimentação. Não tinha jeito: era preciso tentar outro concurso. Prestei vários. Estudando bastante, passei nalguns poucos e fui chamado a me apresentar em apenas um: o da TELERJ (empresa pública telefônica do estado do Rio de Janeiro, na época). Assim, em meados de 1998, pedi exoneração onde eu trabalhava. Segui com a documentação necessária para a sede da TELERJ, que ficava no bairro Jacaré. Quando atravessava a Baía de Guanabara, pela barca Rio-Niterói, vi que um homem se levantou no meio dos passageiros e começou um discurso. Ele falou contra as privatizações que estavam ocorrendo e sobre o quanto isso prejudicava os trabalhadores, que viam seus direitos escoando pelo ralo. Falou sobretudo contra a privatização da TELERJ, que estava em curso. Logo ele foi silenciado por um segurança das barcas (que “coincidentemente” haviam se tornado privadas há pouco). Segui para Jacaré bastante preocupado. Porém não havia alternativa: eu não podia mesmo continuar no trabalho anterior com uma remuneração tão baixa. O salário de Agente de Serviço – posição que eu ocuparia na empresa – não era tão melhor que o de meu outro cargo, entretanto havia um vale refeição bastante graúdo (mais de R$10,00 diários: na época uma grana forte), além de representativo vale alimentação (acima de R$100,00 para compras em supermercado), somava-se assistência médica e odontológica (apesar de a empresa só cobrir despesas dentárias até determinado valor).

Quando comecei a trabalhar na TELERJ, já privada, as decepções começaram. O trabalho, que já era estressante, foi piorando progressivamente. No início, ao chegarmos, batíamos o ponto, registrando nossa entrada. Depois arrumávamos nossas coisas, ouvíamos alguma orientação do supervisor e só depois colocávamos o fone de ouvido para começarmos o atendimento aos clientes via telefone. Com a privatização, a orientação da empresa mudou quanto a isso: acabaram com o relógio de ponto e só era considerado que estávamos na empresa a partir do momento em que atendíamos à primeira ligação. Isso nos forçava a chegar mais cedo e dar um tempo extra de trabalho para a TELERJ, sem receber por ele.

Durante os três primeiros meses pós-admissão, nosso salário era menor pois estava-se no chamado período de experiência. Como esse meu período terminou no meio dum mês, a TELERJ aproveitou para me garfar mais de R$100,00, pagando o salário menor durante um período de 105 dias (em vez dos 90 estipulados, constantes no contrato e legislação – vale ressaltar: pela Consolidação das Leis do Trabalho, CLT, é proibido contrato de experiência por tempo superior à 90 dias). Todos os que estavam nessa situação se organizaram e argumentaram com bastante clareza sobre isso com representantes da empresa via telefone.

Como nada se resolveu assim, fizemos pressão e obtivemos, de nosso chefe imediato, a dispensa de um dia de trabalho para uma colega nossa ir pessoalmente até a sede da TELERJ no bairro de Jacaré, na capital fluminense, levando toda a documentação nossa e todas as demonstrações da ilegalidade da empresa em pagar “salário de experiência” pelos dias trabalhados além dos 90 regulamentares. No entanto, a companheira nada conseguiu: disseram na cara dela que não iam pagar nada além do que fora dado e pronto, os insatisfeitos que acessassem o Poder Judiciário ou pedissem demissão (o que, cá para nós, na prática teria o mesmo resultado: desemprego). Depois disso houve queda no valor a ser coberto pela empresa relativo a tratamento odontológico. Em seguida, veio um corte violento em nossos vales refeição (cortado quase pela metade) e alimentação (indo pruma quantia simbólica três vezes menor). Em virtude desses fatos, foi decidida, numa assembleia sindical nossa, uma paralisação de 24h contra a perda de direitos. A empresa ameaçou nos demitir, chamou vários colegas previamente para “conversar” de maneira intimidatória, além de espalhar cartazes coagindo os funcionários a furar greve. Acabei sendo o único de meu setor a aderir a paralisação, o que me fez ser chamado para “dialogar” com o chefe no dia seguinte. Ao ser indagado por ele sobre a minha “falta”, respondi, polidamente, que me informei sobre a paralisação e aderi a ela, achando até que todos os outros também o fariam. Ao voltar ao meu posto de trabalho e contar ao colegas que eu só teria o dia descontado e mais nada, reparei que ficaram profundamente arrependidos de não terem se incorporado à greve; mas já era tarde: a empresa se fortaleceu com o insucesso do movimento e foi destroçando gradualmente nossos benefícios, chegando depois a demitir setores inteiros (como o Jurídico de Niterói-RJ) por “baixa produtividade”. Com a privatização foi instituído um rodízio perverso de horários: numa semana o funcionário trabalhava a partir de 7h da manhã, noutra entrava só às 15h, noutro momento o horário era 10h…

Dessa forma era impossível estudar. Não adiantava levar documentação comprobatória de matrícula em faculdade, ou noutros cursos, diziam com todas as letras: “ou pede demissão ou abandona o curso”. E era isso mesmo que a nova TELERJ (depois chamada TELEMAR, OI fixo…) queria – pessoas sem tempo para estudar ou refletir sobre suas próprias condições, pessoas que só vivam para dar seu sangue pela empresa e seus donos milionários, beneficiados pela privataria dos políticos, sobretudo do PSDB, mas também doutros partidos. O próprio o Partido dos Trabalhadores (PT) nada fez posteriormente para mudar esse quadro instalado, além de apoiar, por exemplo, leilões de poços petrolíferos da Petrobrás nos governos Lula e Dilma Rousseff. Tais privatizações – a vida me provou – só são boas mesmo para patrões e politiqueiros das diversas legendas partidárias.

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